o prever semanas “duríssimas” no Brasil em razão da pandemia do novo coronavírus, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, voltou a se contrapor aos questionamentos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dizendo que é um médico que trabalha para o Brasil. “O compromisso do médico é com o paciente. E o paciente agora é o Brasil”, disse Mandetta durante coletiva de imprensa ontem no Palácio do Planalto.

Mandetta falou sobre o assunto ao ser questionado sobre a postura de Bolsonaro de criticá-lo publicamente durante a crise. Ontem, o presidente disse que ele e o ministro da Saúde “não estão se bicando há algum tempo” e que lhe faltava “um pouco mais de humildade”.

A pergunta dirigida ao ministro abordava a possibilidade de saída dele da pasta. Mandetta respondeu que não tomará a decisão por vontade própria, a menos que Bolsonaro “use a caneta” para demiti-lo. “Um médico não abandona o paciente”, declarou.

A fala do ministro ocorreu em meio ao momento de maior tensão entre ele e o presidente. E no mesmo dia em que duas pesquisas apontaram um significativo crescimento de aprovação popular de Mandetta na condução das ações de combate à pandemia do novo coronavírus. Em paralelo, foi registrada queda na avaliação das atitudes de Jair Bolsonaro em meio à crise sanitária.

Pesquisa do Datafolha mostra que a aprovação dos brasileiros ao Ministério da Saúde, liderado por Mandetta, subiu 21 pontos percentuais (p.p), de 55% na pesquisa anterior, feita há duas semanas, para 76% na divulgada ontem, cujas entrevistas aconteceram por telefone entre 1º e 3 de abril. O levantamento ouviu 1.511 pessoas e tem margem de erro de três pontos porcentuais.

Também cresceu a reprovação à maneira como Jair Bolsonaro tem agido na crise. Na pesquisa anterior, 33% reprovavam o trabalho do presidente, parcela que agora é de 39% dos entrevistados, variação no limite da margem de erro. A aprovação de Bolsonaro variou de 35% para 33%, e a avaliação de que o presidente é “regular” foi de 26% para 25%, ambas dentro da margem de erro, indicando estabilidade. O mesmo levantamento aponta que mais da metade dos brasileiros (51%) julgam que Jair Bolsonaro mais tem atrapalhado do que ajudado durante a crise do coronavírus.

Outra pesquisa, também divulgada ontem, teve resultados semelhantes. Dados do levantamento XP com a População, realizada pela instituição financeira em parceria com o Ipespe, mostram que a atuação do presidente na condução da crise foi considerada “ruim ou péssima” por 44% dos entrevistados. Outros 29% enxergaram o desempenho do presidente durante a pandemia como “ótimo ou bom” e 21%, como “regular”.

Por sua vez, Mandetta teve sua atuação aprovada por 68%, segundo a pesquisa, que ouviu 1.000 pessoas, por telefone, entre os dias 30/ 3 e 1/4 – período de maior embate entre Bolsonaro e os governadores e Mandetta. O ministro vem se equilibrando entre defender critérios técnicos para definir ações do Ministério da Saúde para minorar os efeitos do vírus e não melindrar o presidente.

Na coletiva de ontem, Mandetta comparou a postura de Bolsonaro com a de um familiar do paciente que questiona a abordagem médica e busca uma segunda opinião para saber como agir. “Cabe ao paciente, representado pelo presidente, dizer se a conduta adotada é interessante”, afirmou o ministro.

Mesmo diante das críticas que Bolsonaro tem feito aos Estados, Mandetta recomendou que a população siga as orientações dos governadores sobre medidas de isolamento, inclusive para decidir se vão participar de manifestações, o que iria contra orientações de entidades da saúde. “Teremos 20 semanas duríssimas. Passamos pelas quatro ou cinco primeiras semanas. Teremos semanas duras em abril e duríssimas em maio”, disse.

Fonte: O Povo