Welignton, cadeirante que vive nas ruas, é um dos beneficiados do banho digno (Foto: André Teixeira/G1)

O viaduto da Avenida Júlio Abreu, no Bairro Varjota, em Fortaleza, é uma entre tantas paisagens da capital onde se evidencia a realidade das pessoas vivendo em situação de rua. No abrigo da sombra do concreto, acumulam-se colchões, lençóis e qualquer objeto que possa oferecer aos “moradores” algo mais próximo da dignidade. Ali perto, no meio da tarde, um grupo se aproxima em uma van com essa mesma proposta, descarrega umas cadeiras e convoca as pessoas.

Há apenas dois meses, Milton Mendes recrutou amigos e familiares, reuniu doações e montou o projeto “Banho Digno”. Na van, dois banheiros químicos e um guarda-roupa improvisado são disponibilizados para levar algum alívio a quem vive na rua. O grupo que promove a ação é voluntário e faz parte de outro projeto social, o Missions Sertão, desenvolvido há oito anos para levar água, alimentos e roupas a cidades do interior do Ceará.

Para além de espantar o calor de 33º que fazia naquela tarde, o trabalho dos voluntários oferece às pessoas em situação de rua um episódio de socialização, escuta e um mínimo conforto.

Abandono e vício 

Maior parte das pessoas que vivem na rua relatam problemas familiares e dependência das drogas (Foto: André Teixeira/G1)

Na maioria dos casos, segundo os relatos mais ouvidos pelos voluntários, a história de abandono da população de rua passa pela carência afetiva, por desajuste familiar e, principalmente, pelo vício em drogas. “Por ser usuário, eu mesmo me sinto muito ruim porque além de fazer mal para mim, faço mal à minha família”, revela-se João. O relatório mais recente divulgado pela Prefeitura de Fortaleza, com dados de 2015, mostra que 1.718 pessoas vivem em situação de rua na cidade.

No lar cristão do voluntário Jeová Vieira, 37, ele e os dois irmãos caíram em vícios de álcool e outras drogas. A mãe aposentada é quem dá sustento à família. Jeová conta que, para não sobrecarregá-la, diferente dos irmãos, sempre consegue um trabalho e vai se virando.

Agora, seguindo o exemplo de fé da mãe, ele saiu das ruas e tenta se reerguer. Há um mês, resiste ao crack, após 25 anos de consumo diário.

Para seguir propagando os bons exemplos, Jeová acompanha os voluntários no projeto e dá o testemunho próprio da força de vontade. Com uma bíblia na mão, ele incentiva Patrícia, que ainda vive sozinha a luta contra a dependência química, a continuar acreditando na salvação. Para ela, e a maior parte dessas pessoas relegadas, seja de onde vier, a única crença que se pode nutrir é a salvação. “A minha visão não é converter ninguém, mas mostrar para eles que existe uma solução. A minha é Jesus”, diz Jeová.

Doações 
Funcionando ainda de forma experimental, o projeto Banho Digno precisa de melhorias. Milton, o idealizador, enumera itens como caixa e bomba d’água, e um gerador de energia. Para conseguir equipar a van, ele usa as redes sociais na busca de doações.

Já Jeová lembra que quanto mais vulnerável a situação das pessoas na rua, mais dificuldades eles têm de convencê-las a participar do projeto. Por isso, para ele, a presença de voluntários capacitados e que conheçam de perto a realidade dos dependentes pode melhorar o serviço. “Pessoas que tenham conhecimento ou que passaram por esse problema também, pra trazer mais os moradores de rua… porque eles têm vergonha.”

Além de oferecer banho, produtos de higiene e roupas limpas, os voluntários distribuem lanches. Desta vez, bolo e refrigerante. Não chega a ser uma festa, mas o gesto converte-se em comemoração para quem se doa, e para quem está lá, todo dia, esperando qualquer forma de entrega.

Além do banho, voluntário do 'banho digno' distribuem roupas e alimentos para as pessoas que estão nas ruas de Fortaleza (Foto: Gleison Oliveira/G1)Fonte: G1/CE