Especialistas destacam a importância do atendimento descentralizado nos Caps. Sem esse serviço, há superlotação nos hospitais secundários.

Do isolamento e da tortura até uma rede de atenção descentralizada e humanizada. O caminho que a Luta Antimanicomial percorre desde 1987 mudou a forma como a doença mental é tratada no Brasil. A despeito dos avanços, profissionais do sistema e Fórum Cearense de Luta Antimanicomial alertam para um cenário de suspensão de novas conquistas ainda demandadas pela população. O Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado hoje, 18 de maio, alerta para a necessidade de combater preconceitos.

O movimento foi iniciado em 1987 com a crítica aos manicômios. Nas instituições, as violências eram comuns: agressões físicas, confinamentos em quartos fechados, alimentação precária ou não alimentação. É o que conta Cláudia Freitas Oliveira, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará e membro do fórum. Foi no Congresso dos Trabalhadores de Saúde Mental, realizado em Bauru (SP), que a luta ganhou força, em um Brasil que vivia cenário de redemocratização pós-ditadura.

“De lá para cá, muita coisa mudou. Se construiu outro tipo de procedimento e tratamento. O tratamento alternativo, em que as pessoas não fiquem trancafiadas e que tenham contato com suas famílias e seu círculo de amizade. Em um hospital, quando tem internação de meses e anos, o indivíduo perde os vínculos. E isso não ajuda no tratamento, pelo contrário, piora. Ainda temos um modelo desse tipo de tratamento que é segregador”, aponta.

Segundo a professora, em 2000 houve o surgimento de uma nova política voltada para a saúde mental. “Substituir o manicômio por outras formas de tratamento, o Caps (Centro de Atenção Psicossocial). Em vez de ser internada, ela teria acesso a uma rede de profissionais de serviços, como psicólogos, terapeutas ocupacionais e arte-educadores, para tentar sair do momento de grande sofrimento psíquico tendo apoio de outros profissionais”.

Para Cláudia, apesar das mudanças, o momento é de retrocesso. “Alguns segmentos querem voltar ao modelo de internação compulsória. Como pessoas que fazem uso abusivo de álcool fiquem meses internadas. Muitas vezes, não existe tratamento. A gente tem uma política nacional que quer a retomada desse modelo de internação. Setores privados que querem investimentos públicos em nível estadual, municipal ou federal. Subsídios para que lugares de atendimento sejam mantidos pelo governo”, comenta.

A descentralização do atendimento, segundo Cláudia Freitas Oliveira, é uma alternativa para o fortalecimento da rede de atenção. “A nossa proposta é que se fortaleçam as redes de atenção às pessoas com uma equipe multidisciplinar. Não importa onde mora, que o paciente consiga serviços no seu próprio bairro, sem ter que ir para longe”, argumenta.

“Atualmente, nós temos alguns Caps que atuam de forma extremamente precarizada. Não há concurso público, isso é fundamental. O psicólogo, por não ser concursado, vai embora e o paciente perde o vínculo, pode se fragilizar novamente. Os profissionais tentam, são pessoas extremamente comprometidas. Mas não existe uma estrutura física. Não existe água em bebedouro, remédios, material de arte, pincéis, cartolina. Os profissionais são guerreiros. Não existe uma política pública em Fortaleza e no Ceará para essa rede de profissionais”.

Magaly Ferreira Mendes, diretora-geral do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, em Messejana, avalia a rede de atendimento: “De uns tempos para cá, acho que a luta antimanicomial sofreu um arrefecimento muito preocupante. A rede substitutiva aos hospitais psiquiátricos acabou não funcionando na sua plenitude. Os hospitais, muitos deles foram fechados e os remanescentes estão recebendo uma demanda muito alta de pacientes.Esses pacientes são tratados em crise, mas, quando recebem alta, nem sempre têm esse atendimento assegurado na rede substitutiva. Isso faz com que ele entre em uma nova crise e volte a se internar”.

“Os progressos que a gente estava vislumbrando na luta, de certa forma, tiveram uma parada, se não um retrocesso, lamentavelmente”, completa Magaly.

Psiquiatra e psicoterapeuta, ela explica que a função do hospital psiquiátrico hoje é atender o paciente no momento de crise e, no momento em que ele sair da crise, deve receber alta. “O período ideal para internação do paciente psiquiátrico no ambiente hospitalar seria de 15 dias, em média, para fazer o resto do tratamento em nível ambulatorial. Essa não é a nossa realidade. Às vezes, os pacientes passam cinco dias esperando vaga para internar. Começam o tratamento e as dificuldades para retornar para a sociedade são imensas. Exigir que famílias vulneráveis tenham suporte para atender os pacientes é até perverso”.

Além da unidade, outros dois hospitais de retaguarda recebem pacientes que chegam na emergência, a Casa de Repouso Nosso Lar e o Hospital São Vicente de Paula. “Os pacientes que ficam em regime de internação são os que chegam em crise graves: pacientes psicóticos, esquizofrênicos, com transtorno do humor, depressões graves e muitos transtornos relacionados ao uso de drogas. A ideia da luta é descentralizar os atendimentos, colocar as unidades mais próximo da população. Descentralizar para acabar com a ideia do hospital como único lugar de resolução da doença. Se a atenção estiver assegurada em níveis anteriores, na prevenção, na atenção básica, nos níveis ambulatoriais, na atenção secundária, não se chegaria com o adoecimento mais grave nos hospitais”, explica Magaly.

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profissionais de saúde devem ser contratados por meio de concurso público para a rede de assistência psicossocial.

MUDANÇA COM O ATENDIMENTO E FALTA DE REMÉDIO

VICTOR, 26, é paciente do Caps há mais de dez anos e viu a mudança com o atendimento. “Faço o grupo terapêutico, aprendo a me expressar mais, a falar melhor, faço amizades. Me ajudou muito”. Quando foi diagnosticado, rememora, tinha muitas crises e dificuldades de aprendizagem. Sobre a diferença no tratamento entre hospitais e Caps, ele destaca: lá era mais preso, isolado. “Os remédios ajudam a me concentrar. Mas, às vezes, falta. É um para a regional toda, é muita gente”, reclama.

Fonte: O Povo