Brasil
Mêncio, Yarvin e Renan Santos: onde termina a reforma da democracia?
Existe uma pergunta que precisa ser feita quando se observa a trajetória intelectual e política de Renan Santos, do MBL e do Partido Missão: a proposta é reformar a democracia brasileira ou repensar os próprios limites da democracia?
Para entender a dimensão dessa pergunta, vale voltar a um detalhe aparentemente curioso: o pseudônimo de Curtis Yarvin, Mencius Moldbug. Mencius é a forma ocidentalizada de Mengzi, ou Mêncio, filósofo chinês do século IV a.C. e um dos grandes nomes do confucionismo. Mêncio defendia uma sociedade organizada pela ordem e pela hierarquia e atribuía grande importância ao governo exercido por pessoas virtuosas e moralmente qualificadas.
É importante não cometer um anacronismo: Mêncio não era “antidemocrata” no sentido moderno. Ele viveu muitos séculos antes da democracia liberal. Sua concepção de governo, porém, não estava baseada na soberania popular como entendemos hoje, mas na ideia de que a sociedade deveria ser conduzida por governantes virtuosos e preparados. Yarvin recupera, em outro contexto e com outra finalidade, uma desconfiança semelhante em relação à capacidade dos mecanismos democráticos de produzir um governo eficiente.
Sua crítica é muito mais radical do que simplesmente dizer que determinado governo é ruim. Para Yarvin, o problema está na própria arquitetura da democracia liberal. Ele defende uma estrutura estatal mais parecida com uma empresa, na qual o poder executivo teria autoridade muito maior e seria concentrado em torno de uma liderança capaz de tomar decisões e responder pelos resultados. Aqui está a ponte entre Mêncio e Yarvin: não uma identidade de pensamento, mas a ideia de que o bom governo não depende necessariamente da participação popular ampla e permanente, e sim da qualidade de quem exerce o poder.
A democracia liberal parte de uma premissa diferente. Ela não pressupõe que os governantes sejam virtuosos. Ao contrário: parte da possibilidade de que sejam incompetentes, corruptos ou autoritários. Por isso cria freios, contrapesos, eleições, oposição, imprensa livre, Judiciário independente e mecanismos de fiscalização. A pergunta decisiva, portanto, não é apenas quem governa melhor, mas quem controla quem governa.
E onde entra Renan?
Curtis Yarvin esteve no evento do MBL em 29 de novembro de 2025, associado ao lançamento do Partido Missão. O próprio Yarvin posteriormente falou sobre as afinidades que percebeu entre suas ideias e o movimento. Isso não permite afirmar que Renan Santos tenha adotado integralmente o neorreacionarismo de Yarvin. Seria uma conclusão maior do que as evidências permitem.
Mas permite fazer uma pergunta legítima e necessária: Quais ideias de Yarvin Renan aceita, quais rejeita e qual é a fronteira entre a sua crítica à democracia brasileira e a rejeição dos princípios da democracia liberal?
Essa questão ganha força porque o discurso de Renan não se limita à crítica a governos específicos. Ele questiona estruturas do sistema político, o funcionamento das eleições, o clientelismo, o sistema partidário e a capacidade das instituições de produzir resultados. Criticar tudo isso é perfeitamente legítimo. A questão muda quando a crítica à ineficiência da democracia começa a se transformar em crítica aos mecanismos que limitam o poder. E alguns sinais recentes tornam essa discussão mais relevante.
O problema dos limites institucionais
Há uma diferença entre defender mudanças no Judiciário, criticar decisões do Supremo Tribunal Federal e propor reformas constitucionais — tudo isso é legítimo dentro de uma democracia — e defender que uma decisão judicial não deve ser cumprida simplesmente porque desagrada ao grupo político que está no poder.
O mesmo vale para intervenções nas instituições. Uma democracia constitucional permite que se discutam mudanças profundas. O que ela não pode aceitar é a ideia de que a força política ou a vontade de um governante esteja acima das regras institucionais. Essa é uma das fronteiras fundamentais entre governo forte e poder sem controle. É possível defender um Estado mais eficiente, uma administração mais profissional e instituições mais rigorosas sem abandonar o princípio de que o governante também está submetido à lei. Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para o Missão:
Se chegar ao poder, quais limites institucionais Renan considera inegociáveis?
E, principalmente:
Uma decisão do Supremo que contrarie o governo deve ser cumprida enquanto estiver em vigor, ou o Executivo poderia simplesmente decidir não cumpri-la?
A resposta diz muito mais sobre uma concepção de democracia do que qualquer rótulo ideológico.
O voto também é um teste
Outro ponto que merece atenção é o debate sobre o sufrágio. No ambiente intelectual que circunda o Missão surgiram discussões sobre modelos alternativos de democracia e sobre a relação entre dependência econômica, benefícios estatais e direito de voto. É preciso fazer uma distinção: não se deve atribuir a Renan automaticamente uma opinião expressa por outro colaborador ou participante desse ambiente.
Mas a existência desse debate permite uma pergunta objetiva: O direito de votar deve continuar sendo universal, independentemente da renda e da condição econômica do cidadão?
Na democracia brasileira, o voto não é recompensa por mérito econômico. O cidadão não precisa demonstrar independência financeira para ter participação política. Quando se começa a discutir se determinados grupos deveriam ter menos influência porque recebem benefícios do Estado, entra-se em uma questão constitucional muito mais profunda: quem está autorizado a participar da decisão sobre os rumos do país? E isso nos leva novamente a Yarvin. Se a população é vista como parte do problema e as instituições democráticas são consideradas obstáculos à eficiência, a concentração de poder passa a parecer uma solução. É exatamente aí que a teoria precisa ser confrontada com a prática.
E as mulheres?
Há ainda uma questão que merece ser colocada diretamente ao projeto político do Missão: qual é a sua política concreta para a proteção das mulheres?
Não basta falar genericamente em segurança pública, liberdade ou igualdade perante a lei. Um projeto que pretende governar o Brasil precisa apresentar respostas para feminicídio, violência doméstica, estupro, perseguição, violência psicológica, proteção de vítimas, fortalecimento das redes de atendimento e prevenção da violência. E existe uma razão adicional para fazer essa cobrança.
Quando um projeto político discute amplamente Estado, autoridade, segurança, liberdade e organização social, mas não apresenta com a mesma clareza uma política de proteção para mulheres vítimas de violência, existe uma lacuna que precisa ser preenchida. Não se trata de exigir uma posição ideológica específica.
Trata-se de uma questão de governo: Como protegerá mulheres ameaçadas? Como enfrentará o feminicídio? Como fortalecerá as instituições que recebem essas vítimas? E qual será o papel das forças de segurança, da Justiça e das políticas sociais nesse processo?
A resposta é particularmente importante quando o discurso político coloca ordem e segurança no centro do projeto.
A pergunta que fica
É possível admirar a eficiência administrativa de uma empresa sem querer transformar o Estado em uma empresa. É possível criticar o Supremo sem defender sua desobediência.
É possível denunciar os vícios da democracia sem abandonar a democracia. É possível defender autoridade sem defender poder absoluto. E é possível querer uma mudança radical na política brasileira sem considerar o eleitor um problema a ser administrado. Essa é a fronteira que precisa ser esclarecida. A referência a Mêncio e Yarvin, portanto, não serve para estabelecer uma equivalência simplista entre Mêncio, Yarvin, Renan Santos e o Missão. Serve para iluminar uma questão.
Quem deve governar?
Mas, sobretudo: quem deve ter o poder de controlar quem governa? Mêncio acreditava na importância do governante virtuoso. Yarvin vai além e questiona a própria arquitetura da democracia liberal, propondo uma concentração muito maior da autoridade executiva. Renan Santos e o Missão precisam dizer claramente onde estão nessa trajetória.
Se a resposta for que querem reformar profundamente a democracia brasileira, então precisam defender também os mecanismos que impedem que qualquer governante se torne maior que as instituições. Se querem um Estado mais forte, precisam explicar quais serão os seus limites. Se defendem eficiência, precisam explicar quem fiscalizará o eficiente. Se criticam o Supremo, precisam dizer como preservarão a independência entre os Poderes. Se questionam o sistema eleitoral, precisam dizer se continuam defendendo o sufrágio universal.
E se pretendem apresentar uma nova ideia de país, precisam mostrar também como essa nova política protegerá as mulheres, os mais vulneráveis e qualquer cidadão que esteja do lado mais fraco da relação de poder. Porque a verdadeira prova de uma democracia não é saber se ela consegue produzir um líder forte. É saber se consegue impedir que qualquer líder se torne forte demais para ser controlado.
É aí que termina a reforma da democracia e começa outra discussão: a possibilidade de substituí-la por um modelo em que o poder deixa de ser controlado pelo cidadão e passa a controlar o cidadão. Essa é a pergunta que Renan precisa responder.
-
Brasil3 dias atrásSete em cada dez brasileiros têm medo de comprar medicamentos pela internet
-
Brasil3 dias atrásNovo Desenrola Brasil entra na reta final com descontos de até 90% nas dívidas
-
Noticias3 dias atrásEstudo relaciona evolução do cérebro humano a maior vulnerabilidade ao autismo
-
Ceará3 dias atrásCeará avança no mercado livre de energia e ocupa 7º lugar em migrações no Brasil
-
Iguatu2 dias atrásGCM confirma acompanhamento de vereadora de Iguatu, mas nega escolta permanente
-
Ceará3 dias atrásInmet emite alerta de ventos intensos para cidades do Ceará nesta segunda-feira
-
Noticias3 dias atrásVenda clandestina de canetas emagrecedoras preocupa autoridades no Ceará
-
Ceará3 dias atrásDengue avança 172% no Ceará e 34 municípios entram em alerta para risco de epidemia
