Exatamente três dias, nove horas e dez minutos sem comer direito. Precisava perder alguns, o suficiente para não ter que abrir mão das roupas que encolhiam pelo desuso.

Alguns quilos, meu Deus! Quantos? Quantos pratos de macarrão com molho e camarão seriam ignorados, quantas picanhas grelhadas com purê de batatas seriam dispensadas mediante um corpo vulnerável e que chorava pelo sacrifício “necessário”? E as montanhas de arroz mexido com leite e carne assada? Os sorvetões de graviola manteados com pó de castanha?!

Ser gordo é pesado! Ainda mais quando se vê que a inércia por conta desse peso pode levar a alterar as taxas tão cobradas nos exames médicos.

Um suco com gelo e um salgado agora tão distante, sendo substituído pelo hibisco, uma mistura de gosto que varia de mata pasto a velame prensados.

Uma semana e a balança denunciadora agora ampara um organismo de química revirada, ansioso por mudanças visíveis, NADA! Pouco peso a menos e fome a três por dois.
Resolve caminhar um pouco, passa em frente a um restaurante, decide por uma água de coco e dá de cara com uma insinuante tigela de miúdos com cuscuz. Vira o rosto, começa a rezar um trecho bem comum: “Não me deixeis cair em tentação”… Sai, um sujeito magrinho traçando um suculento peixe com pirão, parecia uma onça devorando um pirarucu. Continua a rezinha…Sai…!

Duas semanas quase santas, sem o pão de “Luiz Perpeta”, o baião mole aqueijado, a carne assada na unção de manteiga, o cheiro que atordoa de toda ventania das cozinhas, a folha de alface e duas fatias de brócolis radicais pedindo-lhe a atenção. Peito de frango branco, gosto de fome infinita, nenhum cereal e um suco de limão que deixa não só os ácidos em alta como a própria vida azeda.

Quarta semana, certo alento na frouxura das roupas, fome de grãos, de feijão, milho de mungunzá, aquela fome irada de matuta que cresceu revirando os olhos com tanta fartura, a fome de quem perde o direito ao pasto gordo e passa a comer resto de cipó.

Diante do espelho, as marcas do sacrifício ainda tão poucas, mesmas gorduras acomodadas como almofadinhas contidas, membros tão fortes sugerindo similaridade aos que praticam sumô… quase 1000 horas de muita resignação.

O café não é mais o momento lindo do dia, apenas realiza um ritual para manter a máquina sofrida, já não mais deixa o fartor comum de um passado recente, que parece conter séculos. Tempo em que o copão de café com leite repetido fazia parceria com bolo de coco, pão quentinho e uma farta tora de queijo frescal. De tudo, restou o horário e café preto com três, nunca mais, bolachas tão sem gosto quanto a tira alaranjada de peito de frango sem substância do almoço fantasma.

Cinco semanas… Pouca mudança e, na rua, um aceno rápido para uma conhecida (fresca) que esquece o cumprimento e diz que quase não reconhecia a vítima da dieta pela “fofura”. Canalha! Mil vezes canalha!. Parecia que tava falando de um colchão.

Décima semanas, um rápido check up e o médico sem se tocar diz que “precisa perder um bocado de peso, controlar essa boca”. Não sabe o infeliz que está machucando uma alma sofrida que por pouco não o mandou tomar bem no centro de gravidade. Desaforo!

Normal, ouvir tudo isso.

Dia dos namorados, encarar sozinha um show de Marisa Monte, ali, meia taça de vinho… Sozinha! Sem amor, sem estômago, sem rumos… Rumos à vista! Mais uma garrafa de Château Larroque e a leveza da impressão de flutuar. O que não fazem as uvas bem fermentadas?!