Patrícia Santiago: Colunista, Assistente Social

Vote e Lute! Não, o votar não é o principal e o lutar secundário e talvez a maior tarefa do nosso tempo seja essa: entender que nosso voto não mudará muita coisa, se depois de eleitos e eleitas, os representantes se trancarem em seus gabinetes e não mais ouvirem as demandas da população, e se nós, por nossa vez calarmos as nossas reinvindicações porque a pessoa eleita parece competente e vai resolver tudo. Entender que não irá aparecer um salvador, mago ou messias que resolverá os problemas mais urgentes de nossa nação é uma lição que os tempos atuais nos mostraram.

Não faltaram personagens nessas últimas décadas prometendo entregar a nós a terra prometida. Teve o da vassourinha, que prometeu varrer a corrupção, teve o caçador de marajás; teve até um mito, mas mito mesmo é achar que essa gente que não sabe o que é uma escola pública, um transporte público lotado, que não sabe o que é ser entregador de aplicativo sem direitos trabalhistas, que não sabe o que é ser mãe solo na periferia e ter que trabalhar três turnos pra criar seus filhos, vai entender as pautas mais urgentes da classe trabalhadora. Mito mesmo é achar que pelo fato deles terem boa oratória irão propor mudanças estruturais na nossa sociedade; afinal, por que mudar uma sociedade que tanto os favorece não é mesmo? Se eles chegaram lá tão facilmente, pra que mudar a sociedade que sempre os elegerá, e depois seus filhos e netos?

Voltando ao aprendizado imposto pelo período histórico em que vivemos (àquele que falei anteriormente), o doloroso de descobrir que não virá ninguém para nos “salvar”, que não aparecerá o (a) detentor (a) da solução da resolução dos conflitos, pois não existe a “pessoa” certa. E por que digo isso? Porque pessoas em períodos eleitorais montam personalidades e personagens de acordo com os anseios da época. Ela se adapta ao que a sociedade demanda. Se estivermos passando por tempos de fome, elas falarão de fome e se colocarão como alguém que conhece o que sentimos porque já passou fome. Se há uma onda de conservadorismo, ela dirá ser a favor da moral, da família. Se há algum escândalo de corrupção, ela dirá ser honesta e anticorrupção até conseguir o que quer: chegar ao cargo.

Ao chegar lá as coisas mudam. Lembram do personagem? Pois é, ninguém segura um personagem por muito tempo. Chegando lá, essas pessoas se mostram quem são de fato; elas vão ser o que sempre foram e que muitas vezes nada tem a ver com a demanda real da sociedade.

Sendo assim, é constatado pela população, ou por boa parte dela, que o processo eleitoral não será o início de um novo governo, mas a continuidade de um sistema falido, talvez por isso, as pesquisas eleitorais recentes apontam um número alto de pessoas que afirmam não votar em ninguém nessas eleições.

Esse artigo começa com um chamado: “Vote e lute”, mas talvez, ele tenha acabado com a esperança de que o processo eleitoral mudará algo, por isso voltei ao chamado inicial, para começar a falar de esperança.

Primeiramente, não tenho respostas, nem vou chegar com soluções simples para problemas complexos, também estou como vocês leitores, buscando respostas e tentando ter esperança em meio ao caos e, algumas respostas, eu encontrei observando nossos vizinhos. Essa resposta se chama união, organização e luta. Os vizinhos ao qual me refiro são os chilenos, peruanos, equatorianos, paraguaios e colombianos. Todos esses países viveram movimentos de rua intensos entre os anos de 2019 e 2021. Esses países latino-americanos começaram a entender que sem organização social e sem luta não se alcança conquistas sociais e mudanças estruturais. Na Constituição tem um trecho que diz que “todo poder emana do povo”, no entanto, fizeram-nos acreditar que os governantes detêm o poder, fizeram-nos crer que não temos força nem voz.

As eleições legislativas e executivas estaduais e federais se aproximam e não, não devemos nos conformar com o caos, a fome, o descaso; precisamos nos reerguer e acreditar que se a população se unir em benefício próprio, nenhum governo nos derruba, mas juntos, unidos e organizados pelas nossas demandas comuns, podemos derrubar qualquer governo, seja em processo eleitoral ou não.

A tarefa primordial desse ano é: reerguer-nos, olhar, ler, analisar programas de governo, projetos políticos dos partidos e não as personalidades e os personagens criados para concorrer aos cargos. Devemos eleger quem conhece a luta do povo trabalhador, quem tem projeto concreto para o país e os estados, pois temos muitos problemas e eles devem estar nas pautas eleitorais.

Precisamos debater educação, saúde, moradia, transporte público, saneamento básico, meio ambiente, desmatamento, mudanças climáticas, inflação, segurança alimentar, emprego; essas questões devem estar nas pautas. Observe seu(a) candidato(a), observe todos(as) os(as) candidatos(as), se eles e elas não debatem isso, se eles abordam temas genéricos e pautas morais, fuja deles, é só mais um personagem querendo te enganar.

Não deixem de votar e não se esqueçam de lutar. O voto não é um fim em si, o voto é uma escolha inicial e após o processo, é necessário fazer esses eleitos ouvirem a voz das ruas, do povo, de todos os povos. Não os deixem à vontade jamais, pois é necessário acreditar que somos capazes e que mesmo oprimidos pelas correntes que tentam nos aprisionar, somos a mola mestre desse país.

*Por Patrícia Santiago