“Ho girato e rigirato
Senza sapere dove andare
E ho cenato a prezzo fisso
Seduto accanto ad un dolore”

(Claudio Baglioni – Tu come stai (testo))

Geralmente aos sábados, quando não me estendo nas sextas em leituras ou devaneios pessoais que me fazem acordar tarde no sétimo dia da semana, vou ao centro de Iguatu bem cedo pela manhã. Passo na feira do mercado central, merendo, tomo alguma bebida, vou ao sebo do amigo Pusca e compro algum livro usado. Em determinado sábado fiz esse itinerário e comprei alguns livros usados lá no Pusca. Acho que uns três. Foi um Lobato, um Ramos e um do Prado, sobre economia. Ele os limpou com uma flanela, e após limpá-los me dizia algo sobre as obras. Eu já havia folheado cada um para ver se não encontrava algum defeito, páginas soltas, mas vi de relance uma folha em um deles. De imediato não olhei bem a folha, é comum ser um marca texto, um pequeno calendário antigo ou um santinho de uma eleição passada, de alguma dessas figuras que passam pela vida pública de nossa sofrida pátria e salteiam o erário público. Comprei as 3 obras, o Pusca as colocou em uma sacola e eu entrei pela Floriano Peixoto para sair na Praça da Matriz e pegar a Monsenhor Coelho, onde morava. Estava a pé. Em casa tirei as obras da sacola e coloquei-as na estante para depois ver qual iria escolher primeiro, ou nem isso, comprador de livro às vezes mais compra do que ler.

Não recordo se meses ou um pouco mais de um ano após adquirir as obras, me senti atraído pelo livro do Ramos, São Bernardo, uma edição antiga, capa dura. Olhei bem a capa, os dados da edição e havia um nome grafado na página antes do capítulo 1, Cláudio. Era um livro que contava mais de 4 décadas. De súbito, ao folhear as páginas, me veio a lembrança o papel, e logo o encontrei. Uma folha amarelada pelo tempo, dobrada, com as dimensões na metade de uma de uma folha de papel de ofício. Uma caligrafia pequena, mas muito bonita, letra de forma, ainda guardo tal escrito comigo. O papel não é tão extenso, mas a letra pequena foi usada em um dos lados e quase até a metade do outro. Apresento ao leitor o escrito:

Quando o silêncio é necessário para continuar? O tempo, o medo, a angústia, a desilusão, o fracasso, o caos e a vida indo para a morte… Eu não quero mais continuar… simplesmente eu também nem desisto… é tudo agora sem importância… a estrada com seus destinos sejam quais forem eu não tenho mais pressa… O tempo é soberano, tenho minhas chagas; o caos parece que é minha sina e a morte passou a ser uma curiosidade… Eu desisto de continuar e desisto de desistir… simplesmente vivo… é tudo uma questão de instante… O instante é o que tenho… sendo caos ou bonança…

A coisa está feia… muita gente angustiada… um caos no peito e na mente de todo mundo… O caos parece que é necessário nos corações humanos e mentes… Somente a euforia do caos, o tormento da tormenta, pode seguramente nos fazer entender o que é a calmaria após a tempestade…

A calmaria após a tormenta produz um saber supremo… fiz essas linhas em pranto, angustiado e sofrido. Uma desilusão com uma carga de tristeza nunca sentida, uma desilusão sem mais vontade de reagir… Tomei uma dose de cachaça e senti uma angústia maior do que meu coração… chorei…

Multidão de mundos que já existiram antes de mim… O mundo cão abraçou-me sem destino! Pergunta minha mente: por que é assim? Esse inferno de pensar como penso? Desvalido ao léu não tenho alento a viver vivo, mas não sei inventar, não sei me portar como eles se portam no pragmático ser, que a vida econômica insiste em criar… Sai pela noite, aliás, meia-noite, em meio as ruas tristes do centro da cidade. Vi os mendigos a dormirem na Praça do Ferreira com os seus jornais. Parece que um poeta conhecido na cidade também dormia ébrio em um dos bancos da praça. Eu precisava ir até a casa de Clarice terminar nosso noivado, eu estava agora com planos diferentes do dela e mesmo que ela relutasse eu não me importava mais. Aliás, o meu plano é não ter mais planos… simplesmente viver o instante…

No chão de um quarto quase escuro, sobre um tapete muito cheiroso ela me olhava com os olhos com a mesma vastidão de dúvidas que tenho no peito. Seu olhar, sua fala, sua boca, corpo e suspiros eram as coisas mais belas que o pouco de luz me permitia ver… Estavam ali duas almas feridas, marcadas por desilusões, tédios e incapacidade de se adaptarem. A noite passou rápida em meio as nossas conversas, desejos e angústias. Pela manhã sai bem cedo. Vi novamente os mendigos na Praça do Ferreira, o poeta que dormia no banco da praça não estava mais por lá… Parei o carro em frente a minha casa e fiquei a observar a rua vazia… A rua vazia tinha a mesma angustia do meu peito…, mas… não me importava mais, qualquer caminho é caminho e mesmo em meio ao caos, angústias, tristezas do passado e a difícil relação que tenho com meu pai eu não darei mais importância… seguirei…. simplesmente… Se apenas seguir sem dar importância for um plano, agora talvez eu tenha um.

Algumas pessoas sumiram, o país está um caos, a repressão é tremenda! Não há espaço para idealistas sonhadores. Vivo em uma família pragmática, tenho uma função social também pragmática e resolvi não ter mais interesse por essa sociedade que não se interessa por mim, que não se interessa pelas pessoas. Eu nem cansei e nem desisti… tudo agora é irrelevante, só tenho o instante, tão somente. Cláudio, Fortaleza, 21/06/74.

*Por Américo Neto

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