“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém.”
(Belchior, Apenas um Rapaz Latino Americano)

Vi tua face em uma imagem… percebi o que os meus sentidos já haviam me dito… Outro dia, acho que faz alguns anos, de súbito te vi em uma das esquinas de minha cidade. Você não me viu, eu te vi e desfacei… Percebi o mesmo em tua face real e presente do que havia visto na imagem… Como é difícil viver a vontade dos outros, se portar para agradar os que vivem à espreita… Um esforço danado… a vida é tão curta…

Em outra de minhas andanças pelo centro de Iguatu encontrei uma outra pessoa. Os anos não lhe fizeram muito bem… Obesidade, tristeza no olhar e mais outro ser que o manter a aparência é mais importante do que viver realmente o que se sente…Nos olhamos de soslaio, nos cumprimentamos e seguimos o nosso caminho… O tempo não perdoa nossas escolhas e nos faz receber as consequências devidas…

De outra vez, acho que foi em um comércio… não lembro ao certo… acho que foi… sim… foi… foi em um supermercado. Eu a vi distante… eu estava acompanhando com uma nova ilusão e ela estava só no momento… Ela não me viu, mas eu percebi o seu estado… Tristeza no olhar e desilusão pelo que o tempo não confirmou… O peso dos anos, dos sofrimentos, dos traumas e o pior, do querer ser sendo um não ser… Eu passei em frente a um grande espelho… É… estou também na curva impiedosa das mais de 30 primaveras… calvo, olhar de fome de horizonte, sem mais tantas ilusões, colecionando ex-amores, paixões, traumas e fugas do convencional…. Seria mais fácil fazer como todo mundo faz… vive… finge e inventa…, mas não… tenho que ser casmurro, resignado no dizer não, insubordinado, ufano, tosco e do contra… Fugindo do pragmatismo legalista perenemente em uma busca que desconheço, mas durmo bem… Acho…

Encontrei em um bar da cidade um amigo dos anos 90. Gente boa demais… O tempo para esse camarada parece que não passou. O indivíduo continua o mesmo mentalmente falando… As piadas eram as mesmas, as expressões, os torneios frásicos e sua linguística debochada… Eu queria me adaptar e não cambiar tanto…, mas parece que a metamorfose ambulante do Maluco Beleza é uma tônica para mim… Quanto mais vejo o que a multidão faz, mais corro em direção oposta. Li Notas do Subsolo de Dostoiévski… como me identifiquei com o narrador… ele percebeu a decadência miserável da prostituta Liza…

Certa vez conversei com uma mulher desconhecida na rodoviária de João Pessoa. Ele me contou que casou por interesse e conveniência… Ela me disse que tinha vida boa, seus filhos estudavam em boas escolas, mas não tinha amor pelo seu marido… havia casado para sair da penúria que vivia antes… Me disse ainda que só não se arrependia de tudo por causa dos filhos, mas era um pesadelo deitar-se todas as noites com um homem que não gostava… Acho isso algo deprimente, decadente e miserável… bem próximo de Liza lá nas Notas do Subsolo… Somos todos essencialmente decadentes… aliás, em decadência constante…

O tempo passa diferente para cada um de nós…Um camarada “das antigas” tive a sorte de revê-lo a um certo tempo atrás… As coisas cambiaram para ele também, exceto a opinião política, pois insiste em acreditar em um moralismo piegas, em uma ideia conservadora que nem se quer ele mesmo a tem…, porém… o paradoxo faz parte de nossas entranhas, sobretudo para quem reflete. Conversamos, bebemos, relembramos o passado e não deixamos a ironia de lado… O tempo passou diferente para nós… vejo que meu camarada carrega um certo orgulho por algumas coisas e falta de humildade por outras… Creio que ele percebeu em mim uma certa capacidade de ignorar o que não convém, uma postura debochada para quase tudo, sobretudo o modo como ele vive… Perguntas me foram feiras… lógico… e a fuga do convencional se evidenciou para ele… As pessoas não gostam de atrevidos que tentam experimentar a liberdade mesmo que pouca… você termina irritando-as… Nos despedimos… Agradar não é meu forte…

O inconformado incomoda muita gente… sem dúvida… pois ele é um chato, uma voz louca que grita nos ouvidos dos pragmáticos legalistas que só não cortam seu pescoço porque não possuem a oferta que Salomé possuía diante do tetrarca, que de pronto lhe trouxe a cabeça de João Batista… É difícil encarar o convencionalismo, o pragmatismo de nossos dias, o legalismo itinerante de nossas instituições com seus súditos querendo ser sendo não seres… São apenas uma pecinha pequena da engrenagem chamada mundo cão… Geralmente e infelizmente somos isso… uma pecinha na engrenagem…

O religioso que grita, pula, fala coisas que ninguém entendem e arrebanha muitos com uma mitologia que não se confirma na realidade, porque tanto esse religioso como suas ovelhas não possuem compreensão social da realidade que os cercam… Pobres alienados que caminha para o abismo semelhantes a galinhas que confiam em raposas para cuidar do galinheiro… Aqueles mestres que ensinam e ensinam… falam de muitas coisas e possuem um discurso ensaiado que em 10 anos nada mudam… lógico, uma vez que boa parte dos que ensinam não leem mais uma única linha… Vai ensinar o quê? Cursos superiores cheios de gente ávida pelo diploma… é… só isso mesmo, pois tem faculdade que mais parece shopping center do que um ambiente de estudo. Tem umas que tem de tudo, menos ensino pesquisa e extensão… Infelizmente as instituições estão um show de invenções amadoras, pragmática e legalistas… meu Deus… Estamos nos tornando isso… Não vou me estender para política e nem segurança…

Ou ficamos doentes de realidade ou doentes de hipocrisia… Qual a sua doença?

Por Américo Neto
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