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“É sempre tempo”: desigualdade de gênero e preconceito reforçam tabus da sexualidade entre idosos
Ouvir comentários maldosos sobre a relação com a namorada já é tão rotineiro para o aposentado Marcos Antônio de Souza, 67, que ele sequer gosta de comentar sobre o assunto. “Já ouvi várias vezes ‘aquele velho tarado, aquela velha tarada’. Né isso não! O sexo faz bem à saúde. O carinho, o amor e o afeto também”, retruca.
Quem opta por dar continuidade, naturalmente, à vida sexual após a terceira idade carrega junto o fardo do preconceito – principalmente se for mulher. Enquanto 83 a cada 100 homens com 60 anos ou mais afirmaram a uma pesquisa do Datafolha, em 2017, que mantêm relações sexuais, o número de mulheres foi bem menor: apenas 29 a cada 100 idosas assumiram ter vida sexual ativa. A pesquisa entrevistou 2.732 pessoas, das quais 848 eram idosas.
Marcos iniciou o namoro com a aposentada Terani Bastos, 66, há cinco anos, em uma festa junina. A dança e a conquista embalam o relacionamento até hoje. “Eu acho muito bonito um casal já com certa idade se beijar, se abraçar, hoje em dia ninguém vê os jovens fazendo isso. Parece que nem se amam. Entre os mais velhos, isso é normal”, orgulha-se o aposentado.
27% dos idosos entrevistados pelo Datafolha afirmaram fazer sexo uma vez ou mais por semana. 13%, a cada 15 dias; 7%, uma vez por mês; e 47% não praticam.
Mudança
A psicóloga e sexóloga Zenilce Bruno avalia que, “apesar de ainda existir conservadorismo em torno do assunto”, o preconceito em relação a idosos e sexo tem diminuído. “O próprio tabu tem mudado muito. A forma de se vestir, os exercícios físicos, os lugares que os idosos frequentam têm ficado muito parecidos com os jovens. E vida não acabou, só mudou a forma de ser vivenciada”, pontua.
De mudança a escritora Eudismar Mendes, 80, entende: há seis meses, ela ficou viúva do segundo marido, com quem casou já na terceira idade e aprendeu a se desvencilhar ainda mais das amarras sociais. “Agora tô vivendo meu luto, sem me relacionar com ninguém, nem pretendo. Mas se aparecer uma pessoa que goste de conversar e dançar, não vai empatar de jeito nenhum. Enquanto eu puder me mexer e sair tranquila, vou fazer isso”, sentencia.
Eu nunca me preocupei com o que o povo pensa. Sempre gosto de fazer o que acho certo, que não estou agredindo ninguém, sendo feliz. Isso é muito importante em qualquer idade.” Eudismar, 80
A liberdade e a despreocupação com os tabus são algumas das principais vantagens para uma prática sexual saudável entre idosos, como avalia Zenilce Bruno. “A sexualidade permeia toda a existência humana, desde o nascimento até a morte. Se você tem uma vida sexual saudável, prazerosa na adolescência, terá na terceira idade. O que pode modificar são as limitações físicas, como alguma doença ou medicamento, que vai interferir na locomoção, nas atitudes, na forma de vivenciar a sexualidade, principalmente a genitalidade – porque a sexualidade é muito maior do que o coito”.
A análise, aliás, é ratificada por dona Eudismar. “Casamento e sexo são uma coisa muito de tato, toque, da gente se encontrar, se acariciar, querer bem, se abraçar. Essa parte de cama existe também, não vou dizer que não. O mais importante é que a gente se relacione e goste um do outro, tenha as mesmas querências, goste das mesmas coisas, é muito mais fácil a gente se relacionar muito bem, em todas as idades”, declara a escritora.
Saúde
Os benefícios de manter a sexualidade viva e ativa influenciam inclusive na saúde, em diversos aspectos, como avalia o geriatra Victor Falcão. “Quando se busca o exercício pleno de uma vida mais saudável, a sexualidade entra como parte desse contexto de bem-estar biopsicossocial. Os idosos que mantêm uma vida sexual saudável certamente se beneficiam com ganhos na saúde física e mental, influenciando positivamente em diversos aspectos, como em autoestima, disposição, sono, humor, confiança”.
O médico alerta também que não só as vantagens, mas as precauções em relação ao sexo saudável também devem ser tomadas entre os idosos. De acordo com dados do Boletim Epidemiológico HIV/Aids de 2018, do Ministério da Saúde, o número de casos de HIV entre pessoas acima dos 60 anos aumentou 81% entre 2006 e 2017.
7.500 casos de HIV/aids entre pessoas acima de 60 anos foram registrados no Ceará, em 12 anos.
“O mais importante, tanto para profissionais de saúde como sociedade, é tratarmos esse assunto com naturalidade, deixarmos pra trás a cultura e o preconceito de que ao envelhecermos nos tornamos assexuados. O exercício da sexualidade faz parte de todo esse conjunto, e precisa ser tratado dessa forma”, conclui o geriatra.
Série
As cinco reportagens da série “É sempre tempo”, sobre longevidade, foram veiculadas na Rádio Verdes Mares (AM 810) ao longo da última semana de agosto. O quarto tema traz histórias sobre idosos que permanecem ativos no mercado de trabalho.
Fonte: Diário do Nordeste
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