Dia-a-Dia com Maria
Dia a Dia com Maria: Manhãs de setembro na Ditadura Militar (1964-1985)
Duas décadas e alguns meses, tempo em que homens e mulheres, ainda embriagados pelos ventos das vanguardas europeias (sexo, drogas e rock in roll) sonhavam com a tal liberdade que, nos anos posteriores, iria ser conquistada à força das lutas, das fugas, do sangue e exílio de muitos.
A Emenda Constitucional n° 1, de 17 de outubro de 1969, estipulava o mandato presidencial em cinco anos, e a Lei Complementar n. 15, de 13 de agosto de 1973, determinava que os presidentes fossem “eleitos de forma indireta”. Assim, eleito pelo “Colégio Eleitoral”, o General-de-Exército Ernesto Geisel assume o Governo da República no dia 15 de março de 1974 para ficar no poder até 15 de março de 1979.
Exatamente em 1974, a cantora Vanuza gravou “Manhãs de setembro”, letra na qual insistia em refrão: “Eu quero sair, eu quero falar, eu quero ensinar o vizinho a cantar…”
Não, não era tempo de ensinar a cantar, pois todo o canto e corais repetiam o eco dos manuais pesados da ditadura.
O ano de 1974 trouxe mudanças políticas de significativa importância. Uma séria crise do modelo econômico iria alterar o rumo dos acontecimentos político-partidários.
Elis Regina não deixou por menos, chorou o adeus de seus contemporâneos exilados e mortos e cantou “Travessia”:
“Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar…”
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
O ano de 1974 pode ser considerado a fase mais dura do autoritarismo pós-64. Pelo menos nove dirigentes do Comitê Central do PCB foram presos e assassinados, diversas gráficas clandestinas e “aparelhos” foram descobertos e destruídos. As prisões estavam lotadas de presos políticos, e a tortura era prática comum.
Todas as eleições durante o regime militar elegeram candidatos militares do partido da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), porém durante as eleições de candidatos militares da linha-dura (1966 e 1969) não houve outros candidaturas, sendo uma eleição de chapa única.
Nas eleições dos candidatos militares moderados havia outra chapa, de oposição (1974 e 1978), com exceção de 1964, onde todas as chapas eram de militares. A candidatura militar foi indicada pelo presidente Médici tendo como oposição a chapa do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Obtendo 84% dos votos, foi eleito Ernesto Geisel e Adalberto Pereira dos Santos, presidente e vice-presidente, respectivamente.
O Ministério Geisel era um “peso pesado”. Dele participavam importantes mentores e artífices do Golpe de 64, militares. Tinha esse Ministério alguns poucos técnicos e, com tanta repressão, o MDB passou a crescer e angariar adeptos em todas as regiões.
E nas ‘travessias’, alguns saíram do país em busca de refúgios, outros se foram e nem puderam escolher local de exílio. Não mais retornaram!
Surgiu, por essa ocasião, uma verdadeira conscientização internacional de que estava ocorrendo um rápido esgotamento das reservas de petróleo. Os países produtores reagiram, impondo aumento expressivo no preço do produto. O reflexo, em todo o mundo, foi imediato, em particular nos países do Terceiro Mundo. Diminuíram as taxas de crescimento do produto nacional, e a inflação voltou a subir comprometedoramente.
Raul Seixas, no seu metamorfoseio ‘alternativo’, cantou a saudade de uma vida em forma de trem. Em 1974!
“Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar”
Quem seria em sua metáfora ditosa esse responsável pelo ”céu carregado e rajado, suspenso no ar”?
Não creio que fosse possível sonhar quando os ares eram de labirinto e em cada entrada havia um fuzil e uma estrela sem brilho. Tempo de morte e terror , de segredos lapidados em lencinhos de papel ou mesmo sem lenço e sem documento como bem sentia na carne Caetano Veloso que no sol de quase dezembro, partiria.
Quinze de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente do país, em cuja data encerrou-se um período de 21 anos de regime militar no Brasil.
Nos dois decênios de conspiração contra a liberdade de expressão, de movimentos reacionários, quantos sumiram, quantos cemitérios clandestinos foram criados, quantas ossadas fertilizaram campos distantes das cidades, quantos agonizaram sem apoio da Justiça, completamente submetida à ditadura?!
Mais de três décadas percorremos, o Brasil teve a glória de eleger civis, homens comuns do povo, nomear Ministros de todas as áreas de conhecimento, de se destacar no âmbito internacional como um dos países de maior acolhimento à Declaração Universal dos Direitos Humanos e, como um chilique dos abismos, temos candidaturas para o próximo pleito presidencial que pode desestabilizar esse acervo de conquistas tão marcantes. Mas, enfim, o coral continua difícil de ser repensado e eu, “Eu quero sair, eu quero falar, eu quero ensinar o vizinho a cantar…”
Será que me vão tirar esse direito?
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