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Dívida da nefrologia: a dívida existia, os pagamentos apareceram e agora a Justiça quer saber quando tudo foi colocado em dia.

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O caso é o primeiro em cerca de quase 20 anos.

A ação judicial envolvendo a Prefeitura de Iguatu, a Fundação de Saúde Pública de Iguatu (FUSPI), o Centro de Nefrologia de Iguatu (CNI) e o Ministério Público trouxe uma conclusão que já não está mais em debate: a dívida existia.

Nós tivemos acesso à defesa apresentada à Justiça no dia 17 de junho, a Prefeitura não negou o débito que deu origem ao acordo de parcelamento firmado com o Centro de Nefrologia. Pelo contrário. A administração municipal reconheceu a existência da dívida e argumentou que os pagamentos passaram a ser realizados, razão pela qual entende que não haveria mais necessidade das medidas urgentes pedidas pelo Ministério Público.

O caso começou após o Ministério Público receber informações de que a dívida com a clínica teria chegado a R$ 954.914,57. Segundo a denúncia apresentada ao órgão, a situação financeira estaria comprometendo a capacidade de manutenção dos serviços de hemodiálise, fundamentais para pacientes renais de Iguatu e de toda a região.

Nos documentos encaminhados à Justiça, a Prefeitura apresentou comprovantes bancários, planilhas e relatórios para demonstrar que os pagamentos estão sendo feitos.

Entre eles aparece o pagamento da entrada do acordo de parcelamento, no valor de R$ 58.192,90, realizado em 31 de março de 2026. Também foram apresentados comprovantes de pagamentos feitos em abril relacionados a débitos incluídos no acordo.

Esses documentos mostram que havia pagamentos sendo realizados antes mesmo da judicialização do caso.

Mas a cronologia dos acontecimentos chama atenção.

No dia 1º de junho, após receber novas informações do Centro de Nefrologia relatando agravamento da situação financeira e aumento da dívida, o Ministério Público aprofundou a investigação. No dia 8 de junho, a Ação Civil Pública foi ajuizada.

Já parte dos comprovantes utilizados pela Prefeitura para demonstrar a regularização dos repasses tem datas posteriores a esses acontecimentos. Entre os anexos do processo aparecem pagamentos realizados em 2 de junho e outros em 10 de junho, incluindo parcelas do acordo e valores referentes aos serviços prestados pela clínica. Dois dias após o ajuizamento da ação. 

Na prática, isso significa que apesar de existirem pagamentos anteriores à atuação mais firme do Ministério Público, também existem pagamentos feitos depois que a investigação avançou e até mesmo depois da ação chegar à Justiça.

A Prefeitura apresentou documentos demonstrando pagamentos tanto da dívida parcelada reconhecida no acordo firmado com o Centro de Nefrologia quanto da produção corrente dos serviços prestados ao SUS. O maior repasse apresentado na defesa, de R$ 773 mil, refere-se aos recursos federais da produção de nefrologia e não à quitação da dívida histórica que motivou o acordo e a ação do Ministério Público. 

Isso não prova, por si só, que a Prefeitura estivesse inadimplente no momento em que a ação foi proposta. Também não confirma integralmente todas as alegações feitas pelo Ministério Público ou pela clínica.

O que os documentos demonstram é que parte da documentação apresentada para comprovar a regularização foi produzida justamente após o caso ganhar repercussão institucional e judicial.

Há ainda um aspecto que torna a situação ainda mais relevante.

Em cerca de quase 20 anos prestando serviços de nefrologia e hemodiálise para pacientes do SUS em Iguatu e em diversos municípios da região, esta é a primeira vez que o Centro de Nefrologia recorre ao Ministério Público e à Justiça para questionar judicialmente atrasos ou dificuldades relacionadas aos pagamentos pelos serviços prestados.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes de toda a discussão.

Não se trata de uma disputa recorrente entre prestador e poder público. Não existe histórico conhecido de judicialização semelhante nessa relação que já dura aproximadamente duas décadas.

E é justamente por isso que algumas perguntas continuam sem resposta.

Se os pagamentos estavam acontecendo normalmente, por que a clínica informou ao Ministério Público que enfrentava dificuldades financeiras e risco para a continuidade dos atendimentos?

Se a situação estava sob controle, por que uma instituição que nunca havia buscado a intervenção da Justiça decidiu fazê-lo agora?

Por outro lado, se a Prefeitura vinha cumprindo regularmente o acordo, como sustenta sua defesa, como a dívida alcançou o valor apontado no processo?

Essas são as questões que a Justiça terá de esclarecer.

Hoje, a principal discussão já não é mais sobre a existência da dívida, porque ela foi reconhecida pelas próprias partes quando assinaram o acordo de parcelamento.

A pergunta central passou a ser outra: os pagamentos já estavam ocorrendo de forma regular quando o Centro de Nefrologia procurou o Ministério Público ou a situação só começou a ser efetivamente regularizada depois da pressão exercida pelos órgãos de controle e pela ação judicial?

A resposta poderá definir não apenas o desfecho do processo, mas também a compreensão pública sobre um dos episódios mais delicados da saúde pública de Iguatu nos últimos anos.

Quando um serviço essencial como a hemodiálise entra numa disputa judicial por falta de pagamento, a preocupação deixa de ser apenas financeira e passa a ser humana. Estamos falando de pacientes que dependem do tratamento para sobreviver.

A defesa da Prefeitura mostra que pagamentos foram feitos. O Ministério Público sustenta que a situação chegou a um ponto de risco. O Centro de Nefrologia afirma que enfrentou dificuldades suficientes para procurar ajuda institucional pela primeira vez em cerca de quase 20 anos.

Quando um prefeito, em entrevista, classifica uma denúncia como fake news e, depois, que a população descobre que existe uma ação do Ministério Público, uma dívida reconhecida em acordo formal e uma discussão judicial em andamento, surge um problema de credibilidade. O debate deixa de ser apenas sobre números e passa a ser sobre confiança na informação que chega ao cidadão.

Numa democracia, os governantes têm todo o direito de discordar de acusações e apresentar suas versões dos fatos. O que não ajuda é tratar como invenção aquilo que está registrado em documentos oficiais. O cidadão comum não quer saber quem venceu a disputa política; quer saber se o serviço de hemodiálise correu risco e por que uma dívida de quase R$ 1 milhão, reconhecida, precisou ser discutida na Justiça.

Por isso, o debate não deveria se limitar a quem está certo ou errado na disputa jurídica. O que a população quer saber é algo mais simples: houve ou não atraso capaz de colocar em risco um serviço essencial?

Se houve, é preciso entender por que aconteceu. Se não houve, também será necessário explicar por que uma clínica que mantém relação histórica com o SUS decidiu levar o caso ao Ministério Público e à Justiça.

Enquanto essas respostas não aparecem, permanece uma constatação difícil de ignorar: uma dívida de quase R$ 1 milhão se acumulou, precisou ser parcelada e acabou se transformando em um processo judicial. E isso, por si só, já é um sinal de que algo saiu do trilho.

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