Iguatu
R$ 400 mil para APAE: Câmara aprovou projeto com informações contraditórias e ninguém explica onde estão os R$ 350 mil restantes
Iguatu, 15/06/2026 – Nota divulgada pela APAE na sexta-feira (12) não esclarece divergências encontradas nos documentos oficiais; acesso à documentação ocorreu no mesmo dia por meio de pesquisa própria. A situação se torna ainda mais confusa.
A divulgação de uma nota de esclarecimento pela APAE de Iguatu, na última sexta-feira (12), acabou levantando ainda mais questionamentos sobre a parceria firmada entre a entidade e a Prefeitura de Iguatu para a implantação da Clínica Multi Saúde APAE.
No mesmo dia em que a nota foi publicada, nossa equipe teve acesso, por meio de pesquisa própria, à Lei Municipal nº 3.302/2025 e a parte dos documentos que embasaram a parceria. A análise do material revelou uma série de inconsistências que colocam em dúvida a tramitação do projeto na Câmara Municipal e levantam ainda mais dúvidas sobre a transferência dos recursos.
O primeiro problema aparece dentro do documento aprovado pela Câmara.
Enquanto o texto da Lei nº 3.302/2025 autoriza o repasse de R$ 400 mil à APAE em oito parcelas mensais de R$ 50 mil, o cronograma de desembolso constante no Plano de Trabalho anexo ao projeto estabelece algo completamente diferente: cinco parcelas para totalizar os mesmos R$ 400 mil, com execução prevista entre novembro de 2025 e março de 2026.
Em outras palavras, o mesmo projeto apresenta dois cronogramas distintos para a mesma transferência de recursos e ninguém viu?
A divergência levanta uma pergunta inevitável: os vereadores perceberam a contradição antes de aprovar a matéria?
Caso tenham percebido, por que a inconsistência permaneceu no texto final? Caso não tenham percebido, trata-se de mais um exemplo de projeto aprovado sem a devida análise documental por parte do Legislativo.
A situação se torna ainda mais grave porque a nota divulgada pela APAE reproduz a versão da lei, afirmando que o repasse ocorreria em oito parcelas de R$ 50 mil, sem fazer qualquer referência ao cronograma de cinco parcelas presente no documento que fundamenta a parceria.

Outro ponto que chama atenção é que a nota dedica vários parágrafos para destacar a história da instituição, sua atuação social, sua regularidade documental e a ausência de vinculação político-partidária, mas deixa de responder à pergunta que mais interessa à população: quanto dinheiro efetivamente foi recebido até agora?
Segundo informações obtidas por nossa reportagem, até junho de 2026 apenas R$ 50 mil teriam sido efetivamente repassados à entidade.
Se for considerado o cronograma descrito na própria lei, que prevê oito parcelas de R$ 50 mil, já deveriam ter sido transferidos R$ 350 mil adicionais ou, no mínimo, o cronograma estaria próximo da conclusão.
Se for considerado o cronograma constante do Plano de Trabalho, a situação é ainda mais preocupante. Como o documento prevê cinco parcelas entre novembro de 2025 e março de 2026, o valor total de R$ 400 mil já deveria ter sido integralmente desembolsado há vários meses.
Nenhuma dessas situações é explicada pela nota divulgada na sexta-feira.
Há ainda outra questão importante.
A nota afirma que a parceria foi viabilizada com apoio do deputado federal Danilo Forte, por intermédio do prefeito Roberto Filho. Entretanto, a lei aprovada pela Câmara não informa claramente a origem dos recursos, limitando-se a indicar a dotação orçamentária utilizada para o repasse.
Isso gera novas dúvidas:
Partindo do princípio que supostamente os recursos da emenda parlamentar chegaram integralmente aos cofres do município e que foram recebidos, pergunta-se:
Quanto foi efetivamente repassado à APAE?
Por qual motivo apenas uma parcela teria sido paga até agora?
Onde estão os R$ 350 mil restantes?
As respostas a essas perguntas exigem acesso ao Termo de Fomento nº 041/2025, aos empenhos, liquidações, ordens de pagamento, extratos bancários e demais documentos que comprovem o fluxo dos recursos.
Diante das divergências identificadas, a principal conclusão é que a nota divulgada pela APAE não encerra o assunto. Pelo contrário: ela trouxe à tona inconsistências que estavam escondidas dentro dos próprios documentos oficiais e expôs mais uma situação em que a Câmara Municipal parece ter aprovado um projeto contendo informações contraditórias sem o devido exame técnico.
Agora cabe à Prefeitura e aos vereadores esclarecer qual cronograma é o correto, quanto dinheiro já foi efetivamente transferido e qual a situação dos R$ 350 mil que ainda não chegaram à entidade.

Apesar da APAE ser mais uma vez vítima de um sistema capenga, caótico e que não tem a devida atenção, a APAE ainda precisa explicar por que não cobrou o cumprimento do acordo e ainda por que aceitou receber parcelado algo que foi supostamente depositado à vista?
Mas o ponto mais forte nisso tudo, na minha avaliação, continua sendo a contradição documental (5 parcelas x 8 parcelas), somada ao fato de a Câmara ter aprovado o projeto sem corrigir essa inconsistência e de a Prefeitura não ter explicado publicamente por que um recurso que teria supostamente depositado integralmente nos cofres municipais continua sem chegar integralmente à finalidade para a qual foi autorizado. Com exceção da APAE, todos os demais atores – Câmara e Prefeitura – não se manifestaram. Então nos cabe perguntar – Câmara Municipal de Iguatu e Prefeitura de Iguatu – cadê os 350 mil reais da APAE?
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