Americando
AMERICANDO: 93 anos do “Arado”
“Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde quarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
Oh, meu velho e invisível
Avôhai
Oh, meu velho e indivisível
Avôhai”
(Avôhai, Zé Ramalho, 1976).
Em 12 de abril de 1933 nascia no Zé Vieira, situado entre os municípios de Acopiara e Iguatu, José Américo Rodrigues, vulgo “Arado”. À época essa região que possui muitas outras localidades de nomes como sítio Alcântara, Cigano, São José, Ebron, Barra da Ingá e Timbaúba pertenciam a Iguatu. Hoje pertencem à Acopiara. “Arado” era filho de agricultores e donos de engenho de cana de açúcar. Mais um entre tantos filhos da casa de seus pais. Era comum ter vários filhos naquela época. Minha avó, a Dona Terezinha, mulher do “Arado”, teve 17 filhos, dos quais morreram 10 com poucos dias. Minha mãe foi a primeira que “escapou”. Esse era o padrão naqueles tempos, as crianças nasciam doentes e havia até “cemitério de anjos”. “Arado” casou muito cedo com Dona Terezinha.
Muito trabalho e esforço na roça lhe deram a alcunha de “Arado”, pois diziam que ele era um arado, já que fazia serviços de mais de um homem na roça. Arado é um instrumento agrícola usado para lavrar a terra, puxado por animal ou trator. Sua bravura e determinação lhe deram esse apelido.
“Arado” conquistou propriedades com o suor de seu rosto, comprou gado, carros e casas. Instalou-se na Vila Gadelha em Iguatu. Uma fazenda grande e com terras férteis para plantação e criação de gado. Mais uma de suas propriedades, as quais eram distribuídas entre Iguatu e Acopiara.
Tive a graça de ser seu neto e herdar seu nome com o acréscimo de “Neto” ao final. Dele trago muitas lições boas e também ruins. “Arado” me contou muitas histórias trágicas que presenciou ao longo de sua vida; muitas lutas, provações e situações difíceis as quais passou. Ouvi tudo que me contou debaixo do alpendre em sua residência no Gadelha. Ouvia com devoção, bebia cada palavra de suas histórias, que inconscientemente sabia que tudo aquilo no futuro eu iria recordar com saudade e quiçá, escrever. Ele tinha o dom de contar histórias e cada história que contava envolvia os ouvintes. Particularmente eu gostava de ir à sua casa nos dias de semana, pois aos fins de semana havia muita gente e eu gostava de conversar com ele a sós. Lembro com saudades desses momentos. Sinto falta…
Certa vez fui até sua casa. Eu estava de férias na ocasião. Ele estava muito bravo e contrariado com uma pessoa. Era sobre umas trocas, dinheiro e outras tantas coisas relacionadas a negócios que fizera. Ele ficava com raiva porque algumas pessoas geralmente não cumpriam prazos e nem palavras dadas em acordos. Ele estava “ferroado”. Aí cheguei, tomei conhecimento do contexto e ele me disse: “Tem gente que pode tá dentro d’água, eu faço mais do que ele em cima de uma pedra!” e continuou… “No presta pra nada! Um sem futuro! No tem prosperidade com nada!” e ainda acrescentou: “Nosso Senhor quando tava na terra contou uma história que um cidadão emprestou dinheiro a três camaradas. Dos três, um não fez nada com o dinheiro. No emprestou e nem empregou. Sem futuro! Aí o homi que havia emprestado deu o dinheiro desse sem futuro a um dos outros dois que mais tinha prosperado, veno!”. Ele lia algumas histórias da Bíblia, havia frequentado a igreja em determinado tempo de sua vida e tirava lição de tudo. Também era muito apaixonado por poesia; lia e decorava os versos das literaturas de cordel. Aquilo era sua fabulação, seu encantamento, lia e decorava para depois recitar. Ouvi muito ele recitar tais versos e sempre quando recitava ele fazia análises e tirava lição daquilo tudo. Ele praticamente filosofava de forma poética e crítica sobre tudo que passou em vida, leu e ouviu também de outros tantos com outras tantas histórias.
“Arado” era muito correto. Certa vez fizemos um negócio e no dia dele prestar contas comigo, ele apareceu dizendo que não tinha conseguido o que havíamos combinados, por questões que dependiam de promessas não cumpridas de outras pessoas, as quais ficou esperando estas, e não havia dado certo acertar comigo. Porém… ele quis me dar algo como um juro para eu esperar mais alguns dias, que após isso, ele não dependia dos outros, mas de algo certo que estava agendado para receber. Eu fiquei impressionado. Alguém te deve e não tendo como te pagar naquele dia, te procura para dizer que não tem o que ficou acordado, mas te traz uma espécie de juro, para você esperar mais alguns poucos dias. Difícil alguém assim. Por isso às vezes ele ficava contrariado com alguns poucos que não cumpriam acordos com ele. Eu não aceitei o tal juro, pois creio que naquele dia tive uma aula de honra, honestidade e caráter que jamais tive em minha vida. Me pagou quando deu certo dias depois como havia dito.
É…. “Arado” … você faz muita falta…
Por Américo Neto.
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