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“A persistência da violência contra mulher na sociedade brasileira”. Com esse tema, a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) saiu das folhas de provas de milhões de estudantes do país e tomou a sociedade em um debate público sobre o tema. Se, por um lado, o tema gerou polêmica, por outro, foi considerado um grande avanço pelas feministas.

Inspirado pela campanha “Meu Primeiro Assédio”, na qual mulheres relatam a primeira situação de violência da qual se recordam, o Brasil de Fato MG colheu relatos de jovens que apontam para uma realidade: a maioria dos abusos – sejam sexuais ou morais – acontecem ainda na infância, próximo ou dentro de casa.

“Era criança e um tio meu foi morar comigo e com minha mãe. Comecei a perceber alguns atos estranhos… Um dia, ele chegou bêbado e passou a mão na minha perna. No outro, pegou dentro da minha calcinha. Tempos depois o flagrei se masturbando na porta do meu quarto. Comecei a me trancar para dormir e essa situação desconfortável se alongou por meses, até que enfim ele resolveu se mudar”. Bruna Cardoso*, 21 anos

“Quando tinha seis anos de idade, meu irmão, dois anos mais velho, estava me levando pra casa e no caminho me disse: “ninguém te acha bonita”. Discordei, balbuciando que ‘um monte de gente me acha bonita, meu pai, minha mãe, os amigos dela…’. Ele completou: ‘só velho, ninguém novo te acha bonita’. Acreditei. Esta percepção negativa foi sendo reafirmada com o passar do tempo”. Isabela Morais*, 23 anos

“Eu tinha seis anos. Minha avó ia rezar o terço todos os dias na capela próxima à minha casa. Quando ela batia o portão, eu já sabia o que ia acontecer. Meu irmão abria a calça e me obrigava a fazer sexo oral nele”. Carolina Serra*, 22 anos

Realidade nacional

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em março do ano passado, ouviu pessoas a respeito da “Tolerância social à violência contra as mulheres” e descobriu que 26% dos homens entrevistados acreditam que roupas curtas justificam abusos sexuais.

Além disso, o Brasil ocupa a 7ª posição no ranking de países onde acontecem mais assassinatos relacionados a gênero, com 4,4 crimes registrados para cada 100 mil mulheres.

A psicóloga Ludmilla Carvalho chama a atenção para os diversos tipos de abusos sofridos pelas mulheres, que além de físicos, podem ser psicológicos e morais, e reforça a importância de buscar ajuda.

“Muitas buscam algum tipo de suporte somente quando ocorre agressão, que é o caso mais extremo. É importante procurar um profissional de psicologia para que se possa reconhecer a situação de depreciação, entender as relações para que essa pessoa que sofreu possa traçar estratégias, descobrir o que pode fazer com aquilo”, destaca.

Causas da violência

Ludmilla explica que uma das causas para que mulheres sejam vítimas de violência desde a infância é a maneira como a sociedade foi construída, de forma patriarcal. “Nesse contexto sócio histórico, a mulher é tida como objeto. Quando ela nasce, é propriedade do pai e, quando casa, do marido. A partir dessa visão, as pessoas tendem a achar que tudo o que acontece ou venha a acontecer com ela é válido. Por isso, a violência é naturalizada”, critica.

Ela ressalta que o Brasil ainda é marcado pela herança do período militar, com a ideia de que a “ordem” se mantém a partir da imposição da agressividade. “O que faz com que a gente não só não problematize situações de violência, como culpabilizemos a vítima, achando que ela fez por merecer aquilo”, declara.

Feminismo

A militante Elza Russo, da Marcha Mundial das Mulheres, acredita que a impunidade é um dos fatores para que a vítima não denuncie seu agressor. “A principal contribuição do movimento feminista é a auto-organização de mulheres. O que quer dizer que quando eu relato uma violência, eu não estou falando só por mim, mas por outras. A gente se ajuda, se apoia e luta juntas”, ressalta.

* Os nomes reais das mulheres foram preservados.

Fonte: Brasil de Fato