A Polícia Federal encontrou na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres a minuta de um decreto que permitiria ao então presidente Jair Bolsonaro (PL) estabelecer estado de defesa e intervir no Tribunal Superior Eleitoral. Inconstitucional, a medida permitiria a Bolsonaro reverter a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de outubro. Torres, que está nos Estados Unidos e havia assumido a Secretaria de Segurança do DF, teve a prisão decretada pelo STF por suspeita de omissão e conivência com os atos terroristas do último dia 8. A minuta (íntegra) estava dentro de um armário na casa de Torres em Brasília e foi achada durante uma operação de busca feita pela PF. Os investigadores querem saber as circunstâncias em que foi elaborada. Pelo texto estima-se que tenha sido escrita após o segundo turno, quando a derrota de Bolsonaro já estava confirmada.

Usando uma rede social, Anderson Torres escreveu dos Estados Unidos dizendo não ser o autor da minuta e afirmando que ela “foi vazada fora do contexto”. Segundo ele, como ministro da Justiça, recebia “sugestões e propostas dos mais diversos tipos”. E segue: “Havia em minha casa uma pilha de documentos para descarte, onde muito provavelmente o material descrito na reportagem foi encontrado”, disse. “Tudo seria levado para ser triturado oportunamente no MJSP. O citado documento foi apanhado quando eu não estava lá e vazado fora de contexto, ajudando a alimentar narrativas falaciosas contra mim.”

Um grupo de 80 procuradores da República apresentou ontem ao procurador-geral Augusto Aras um pedido de investigação criminal contra Bolsonaro por incitação ao crime. Além dos ataques às instituições democráticas ao longo seus quatro anos de governo, os procuradores citam um vídeo publicado por Bolsonaro no último dia 10, após os atos terroristas em Brasília, questionando o resultado das eleições.

Gerson Camarotti: “Aliados próximos de Bolsonaro já não escondem mais o temor com um depoimento comprometedor do ex-ministro Anderson Torres e até mesmo com um cenário de delação premiada.”

Bela Megale: “Integrantes do PL avaliam que o documento apreendido pela PF na casa de Torres será usado para abrir uma investigação contra Jair Bolsonaro e torná-lo inelegível. O partido já vislumbrava essa possibilidade devido a outras ações que correm na Justiça Eleitoral, mas avalia que o novo documento deve trazer celeridade a esse processo.”

Tales Faria: “Eles [o governo Bolsonaro], de fato, pensavam o golpe, e esse documento só vem a mostrar isso. Não se trata de acusar o ex-ministro de crime de golpe de Estado com base em uma minuta. Trata-se de que o ex-ministro soube do crime. Alguém propôs a Torres o crime, e ele não deu ordem de prisão. Prevaricou.”

By Luís Sucupira

Jornalista - MTE3951/CE