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AMERICANDO: A extinção da lógica racional de alguns tantos

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“Terceiro mundo se for

Piada no exterior

Mas o Brasil vai ficar rico

Vamos faturar um milhão

Quando vendermos todas as almas

Dos nossos índios num leilão”

(Que país é esse?, Legião Urbana, 1987).

 

Então… a falta de lógica é a grande lógica de alguns. Não falo de beber detergente, fato comum para alguns para protestar ultimamente, nem tão pouco de destruir chinelas de determinada marca, acenar para o céu com aparelhos celulares, na hipótese de se comunicar com seres de outros planetas, rezar para pneus ou se grudar na dianteira de um caminhão. Não… não falo disso… isso, já disse, não falo. Deixa a banda tocar sem harmonia, isso evidencia muitas coisas no país.

O que falo é sobre algumas coisas que uma reflexão mínima deixaria qualquer um a par do dom supremo da racionalidade. Pelo menos é a lógica de quem reflete. Parece que a reflexão está extinta, sobretudo em muitas manifestações do ambiente virtual, para expor com orgulho, a ignorância  da vida prática de alguns pobres anônimos. Duvido que alguns políticos representem na prática os discursos que fazem para engajar a militância tão pouco harmônica racionalmente. Vamos lá…

Há um projeto para acabar a escala de trabalho 6 por 1. Os defensores argumentam que os trabalhadores precisam de mais lazer, mais tempo com a família, melhora da qualidade de vida, saúde mental e sobretudo melhores condições de trabalho e descanso para mulheres, as quais muitas vezes fazem jornada tripla. Trabalham manhã, tarde e à noite quando chegam em casa, pois muitas vezes ainda cuidam dos filhos, fazem janta e alguns afazeres da casa, após uma jornada de trabalho de 8 horas. Algo muito cansativo para as mulheres trabalhadoras de nosso país. Nada mais do que justo, duas folgas na semana para os trabalhadores e trabalhadoras da nação. Mas…, aqui o sentimento colonial dos que possuem poder econômico continua. Dizem que vão quebrar o país, vão prejudicar a produção, o desemprego vai aumentar e boa parte dos pequenos empresários vão falir. Balela… essa mesma cantilena os senhores de escravos disseram antes da abolição. E tudo continuou como sempre foi. Ricos continuam explorando, apesar das leis. As prisões atualmente são mentais. E o trabalho hoje, em meio a um neoliberalismo sem humanidade, adoece.

Alguns políticos do nosso país, depois de anos e anos jogando com o medo da população, abordando a temática da violência, viraram a chave para o tripé Deus, pátria e família. O moralismo em riste de algumas dessas figuras que nos representam são também veementemente contra o fim da escala 6 por 1. Não tenho nada contra o tripé, que por sinal tenho minhas crenças, gosto do meu país, apesar de suas mazelas e de ser muito mais nordestino do que brasileiro, e de ter, logicamente, família. Sim, pertenço a uma e sentimentalmente adotamos pessoas que não são de sangue, mas são de alma. Inclusive, alguns destes políticos, elaboraram já uma proposta de Emenda Constitucional – PEC – para uma jornada de trabalho de 50 horas semanais. Duas a mais do que as 48 horas contidas na escala 6 por 1. Isso sepulta a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT.  Esse povo que é contra o fim da escala 6 por 1 é a favor de fato da família? Eles querem aumentar a escala 6 por 1 para 7 por 0, sabiam? Detalhe, muitos dos que são contra o fim da escala que proporciona aos trabalhadores somente um dia de folga de trabalho por semana, praticamente trabalham no regime de 3 por 4. Ou seja, trabalham 3 dias por semana e folgam 4. Esta é a lógica de quem nos governa. A desarmonia racional opera com excelência quando pobres anônimos concordam com isso, infelizmente…

Outra… falam da importância da fé em Deus, de ser cristão, dos valores cristãos, mas boa parte dos discursos de alguns é de ódio, preconceito e defendem o uso de armas. Detalhe, eles com seus bons empregos podem comprar armas, mas a imensa maioria da população deste país se esforça muito, acorda cedo e trabalha o dia todo para só existir praticamente. Há poucos anos esses políticos permitiram que qualquer pessoa tendo condições econômicas registrassem 60 armas e duzentas munições. Isso vai dar trabalho para resolver, apesar desta legislação já ter sido modificada. Parece que a visão que esse povo tem de Deus é de um deus que mata. A desarmonia reflexiva opera, sobretudo quando pensamos no que O Mestre Santo disse: “Quem com o ferro fere, com o ferro é ferido” (Mateus, 26:52).

Para encerrar, sem dúvidas e nem conspirações, pois é estatístico que por dia no mínimo 4 mulheres são assassinadas pelos seus companheiros no Brasil. Uma pessoa da mídia chegou a dizer que homens são mais agredidos e mortos por mulheres do que mulheres agredidas e mortas por homens. Uma simples pesquisa em qualquer site de estatística ou até mesmo em uma busca rápida na net constata-se que esta afirmação é falsa. Complicado… esses discursos são semeados e propagados rapidamente por pessoas que às vezes sabem que estão desinformando, mas outras sentem-se orgulhosas de repetirem uma informação que não tiveram o trabalho nem de constatar a veracidade. Persiste a desarmonia racional. O fato da informação contemplar o “meu” universo de expectativas ideológicas, já é o bastante para se compartilhar e bradar aos quatro cantos aquilo que me satisfaz. O pior é que o ódio é um tempero presente nisso tudo. Pobres anônimos como muitos de nós continuam concordando geralmente com isso.

É isso… a falta de lógica é a grande lógica debaixo do Equador. Não vou falar nem de pátria, pois os povos originais sabem que ainda estão em guerra e que, infelizmente de alguma maneira, ainda somos colonizados. Alguma nota na banda da racionalidade deste país está em desarmonia…

 

Por Américo Neto

Contato: [email protected]

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