Americando
Americando: A primeira vez que “VI” a morte
Acho que foi nos fins dos anos 80… sim… foi… seguramente… Eu devia ter no máximo 6 anos, morava em minha terra natal, Juazeiro do Norte, precisamente na rua Afonso de Melo – disto eu sei porque escutei depois de minha mãe, não tenho totais memórias da infância – e as roupas não eram algo que me importava naquela época, devia está nu ou de cuecas, descalço e uma bico na boca, bem comum entre crianças que depois precisaram usar aparelhos, aqueles arames “lindos” na boca… este era o cenário…
Percebi uma grande movimentação na casa vizinho a minha. Muita gente… eu da calçada da minha casa fui até a casa vizinha, à esquerda… acho que com mais um ou dois pirralhos, assim como eu, me acompanharam… um murmúrio enorme, ar pesado, várias pessoas, um ar triste, alguns choravam quando íamos entrando… Passamos a sala, corredor, alguns quartos ao lado estavam cheios de pessoas morenas, de branco… chegamos na sala de jantar, depois cozinha, quintal e finalmente um quarto no final do quintal, o último cômodo da casa… Vi que na porta havia uma mulher alta, morena, chorando… não sabia bem o porquê, mas sabia que não era algo bom, pois eu chorava quando minha mãe ia trabalhar…
Eu continuei entrando com as outras crianças que me acompanhavam… Entramos no cômodo, ao fim deste uma cama e uma senhora deitada. Nos aproximamos, vi que era uma senhora negra, cabelos brancos, braços cruzados, lençol branco a lhe cobrir até a metade de seu corpo. Ela estava com os olhos fechados… me aproximei, peguei em um de seus braços que estavam sobre sua barriga e levantei um pouco puxando os seus dedos… ouvi uma voz atrás de mim “Está morta…” soltei, fiquei com medo, ela não se mexia, olhei pra trás, era um rapaz de meia idade, não lembro suas feições, mas acho que chorava, não entendi nada, fiquei sem saber o que fazer, sem lógica então… corri… refiz o caminha pelo qual havia chegado aquele quarto, acho que as outras crianças que estavam comigo me acompanharam correndo e chorando, não me lembro ao certo se chorei, mas voltando passei pelo quintal, cozinha, sala de jantar, corredor, sala e finalmente a calçada da casa… saí dali… o resto não me lembro… lembro deste ocorrido… marcou-me… depois, também não me recordo ao certo, entendi o que era morrer e meu primeiro velório formal foi o de minha avó, quando eu tinha dez anos… foi de certa forma um momento que não entendi bem, vi meus familiares chorando e vi que a coisa era digna de um sentimento pesado, dolorido…
Removendo esses escombros percebo que o fim das coisas está sempre posto, preparado e a nos esperar… nós, limitados no tempo e no espaço é que nunca estamos prontos, o fim sempre está pronto, ali, imperioso… a chegada nos aguarda, a estrada é que tem que ser trilhada até lá… eu vi o fim daquela senhora… tudo posto e eu contemplei a tristeza de sua partida… ela ali, imóvel, deitada, sem palavra, voz, movimento, olhos fechados… eu vi… não entendi naquele dia, mas era o fim das coisas na perspectiva natural… eu vi a morte pela primeira vez naquele dia…
Há muita coisa entre o fim das coisas e o começo de outras do que sonha a nossa passageira vida… este fato faz no mínimo 30 anos… e lá se foram aquela senhora com a morte e eu aqui ainda com a vida lembrando daquele fim…
*Por Américo Neto
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