Mundo
Cientistas desenvolvem embriões de camundongos em útero mecânico
Pela primeira vez, cientistas conseguiram fazer com que embriões de camundongos se desenvolvessem por um tempo relativamente longo fora do útero da mãe, em um útero mecânico. Os resultados da pesquisa, feita em Israel, foram publicados nesta quarta-feira (17) na revista científica “Nature”, uma das mais importantes do mundo.
Uma gestação de camundongo dura cerca de 20 dias. No experimento, os camundongos foram concebidos naturalmente e ficaram no útero da mãe por 5 dias, quando foram retirados e colocados no útero mecânico – onde passaram mais 6 dias, até morrerem.
Segundo os pesquisadores, do Instituto Weizmann de Ciência, 20km ao sul de Tel Aviv, este foi o ponto da gestação em que a oxigenação ficou insuficiente. Além disso, o fluxo sanguíneo para os bichinhos passou a ser imprescindível – e, no útero mecânico, isso não existia. Cerca de 77% dos embriões sobreviveram após o quarto dia no útero mecânico.
“Após 4 dias, os embriões começam a apresentar anormalidades e morrem rapidamente durante a noite”, dizem os cientistas.
Os pesquisadores constataram que, até esta etapa, os camundongos estavam se desenvolvendo normalmente, de forma compatível com embriões em um útero animal.
Possibilidades
Os cientistas queriam descobrir, ao colocar os embriões no útero mecânico, o que acontecia exatamente após a implantação deles no útero. Nessa etapa, as células dos embriões vão se diferenciando para formar tecidos e órgãos.
A sequência desses eventos em um determinado período de desenvolvimento do embrião, entretanto, ainda precisa ser totalmente entendida – e continua sendo difícil de manipular.
Um dos desafios era descobrir quais eram as condições ideais – de oxigenação e nutrição, por exemplo – que permitiriam aos embriões se desenvolver fora do útero da mãe camundongo. No experimento, os cientistas israelenses modularam as quantidades de oxigênio, gás carbônico e, ainda, pressão atmosférica para os embriões dentro do útero mecânico.
“Uma vantagem que esta plataforma de cultura fora do útero oferece é a capacidade de aplicar manipulações em embriões de camundongo pós-implantados e acompanhar o resultado nos mesmos embriões após vários dias de desenvolvimento”, pontuaram os pesquisadores.
Ao discutirem os resultados da pesquisa, os cientistas avaliaram que “a capacidade de remover um embrião de mamífero do ambiente uterino e cultivá-lo normalmente em condições controladas constitui uma ferramenta poderosa” para caracterizar o efeito de perturbações no desenvolvimento embrionário.
Para eles, a pesquisa “prepara o terreno para a expansão da pesquisa com embriões sintéticos a partir de embriões agregados de células-tronco e de diferentes espécies de mamíferos”.
Resultado ‘espetacular’
Em entrevistas à revista científica “Science” e ao jornal americano “The New York Times”, pesquisadores que não participaram do estudo classificaram o resultado como “espetacular” e “notável”.
“Parece muito espetacular”, disse o biólogo Alexander Meissner, do Instituto Max Planck de Genética Molecular, em Berlim, na Alemanha, à revista “Science”. “O fato de [os pesquisadores] poderem cultivar esses embriões e mantê-los vivos por tanto tempo – é incrível.”
Antes, de acordo com a reportagem, o máximo de tempo que os embriões podiam ser mantidos fora do útero animal era de 3 ou 4 dias.
A cientista Magdalena Zernicka-Goetz, bióloga do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), disse que o resultado abre novas portas para um estudo detalhado do desenvolvimento embrionário.”Dará uma grande contribuição para o campo, que certamente planejamos explorar”, afirmou Zernicka-Goetz.
Ao jornal “The New York Times”, o biólogo Paul Tesar, da Universidade Case Western Reserve, no estado de Ohio, afirmou que o estudo é uma “conquista notável”.
“O Santo Graal da biologia do desenvolvimento é entender como uma única célula, um óvulo fertilizado, pode fazer todos os tipos específicos de células no corpo humano e se transformar em 40 trilhões de células”, disse o Dr. Tesar. “Desde o início dos tempos, os pesquisadores vêm tentando desenvolver maneiras de responder a essa pergunta”, afirmou.
Fonte: G1
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