Guto Requena acredita que as novas tecnologias estão colocando a arquitetura em cheque.Foto: Luísa Ferreira/MundoBit
Qual o impacto das novas tecnologias na nossa maneira de se relacionar e de vivenciar os espaços? Esse questionamento é o objeto de estudo e trabalho do arquiteto Guto Requena, um dos palestrantes do Interaction South America (ISA) na última sexta-feira (15/11) no Centro de Convenções, em Olinda.

Em sua palestra, o arquiteto defendeu a visão de que hardware e software são tão importantes para a arquitetura quanto tijolo e concreto, e mostrou exemplos de projetos desenvolvidos em seu estúdio com o uso de novas tecnologias. “Hoje existem novas maneiras para arquitetos dialogarem com o mundo digital. Face recognition, eye tracking, localizador de voz etc”, exemplifica.

Requena observa que o desenvolvimento de novas tecnologias modifica nossas necessidades arquitetônicas. “Está se tornando mais comum trabalhar em casa, e isso redimensiona a maneira como planejamos o espaço. Como eu recebo meu cliente em casa? Ele vai passar pela sala?”, exemplifica.

Ao mesmo tempo, diminui a separação entre o público e o privado. Por exemplo, levamos o privado para ambientes públicos ao fazer ligações pelo celular, enquanto o uso da internet em casa leva a instância pública para dentro da particular. “Está nas nossas mãos se apropriar disso e redefinir isso”, afirma. Assim, um reflexo da cultura digital é o desenvolvimento de espaços mais flexíveis, mutantes, que se moldam às necessidades das pessoas.

Outro reflexo é o fato de que o lar vem deixando de se relacionar apenas com o espaço físico da casa. “Esse entendimento se expande para territórios muito mais simbólicos. Se estou viajando e abro meu computador ou tablet é como ter um respiro de algo próximo, conhecido. A arquitetura está sendo colocada em cheque”.

Ele aposta, ainda, que a casa do futuro não é fria e “asseada”, e sim “uma casa real, honesta, impregnada de memórias”. Por isso, seu objetivo é fazer os usuários se envolverem emocionalmente com as peças, fazendo assim com que ela tenha um ciclo de vida muito maior, o que inclui também um aspecto sustentável. Vivemos, ao mesmo tempo, uma expansão do nosso corpo através das tecnologias e uma humanização das máquinas, que nos “entendem” cada vez mais. A proposta de Requena é lidar com isso de forma propositiva, unindo o orgânico ao digital.

Essa filosofia também está presente nas criações do arquiteto, como é o caso da cadeira Nóize. “Captamos sons da Rua Santa Efigênia, em São Paulo, e juntamos os arquivos sonoros com os correspondentes ao design da clássica Cadeira Girafa, de Lina Bo Bardi. Depois, imprimimos a cadeira em 3D”, explica. A obra é um exemplo concreto de que agora podemos misturar coisas que não podiam ser mescladas, como som e design, já que tudo virou bit.

Fonte: Uol Notícias