Maria Lopes, colunista e advogada

Os “Jeca Tatu”

Esse personagem fictício de Urupês, obra destacável de Monteiro Lobato, cuja caracteristica é a preguiça, continua latente e latindo entre nós.

A história é inspirada no roceiro paulista pobre, cheio de lombrigas, de pés rachados, amarelo e preguiçoso. Mas não era por ser sem virtude, leviano com a dádiva da vida, era apenas um ser à margem de uma sociedade que atrapalha dos esquecidos e monta a pirâmide sufocando a seiva dos pequenos.

O Jeca precisava de apoio para ter qualidade de vida, mas como iria buscar isso se nem sabia o que era dignidade?! Era a um só tempo um pedaço de pau, um passarinho, uma folha seca, uma mesclagem telúrica que se camuflava no sertão perdido.

Ninguém melhor que o folclorista Cornélio Pires em assim reconhecer o Jeca:

“coitado do meu patrício! (o caipira caboclo). Apesar dos governos, os outros caipiras vão se endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene… Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa. Ele não sabe! Foi um desses indivíduos que Monteiro estudou criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral…”

Só que o embrião de tudo foram as informações, publicadas em Relatório Médico-Científico (1916) pelo Instituto Oswaldo Cruz, promovendo campanhas em favor do saneamento, estimulando a criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil (1918). Monteiro Lobato aderiu à campanha com o seu personagem Jeca Tatu.

Mas até que ponto somos Jecas, urbanos ou rurais?
Não pairam dúvidas de que estamos à mercê de privações as quais bem próximos estivemos de superar, mas que no rolar das águas, calados e amebados como o Jequinha original, então sentados na soleira da porta da vida de sapé, esperamos as bordoadas.

Tiram-nos direitos trabalhistas, desmatam a Amazônia, aumentam preços baseados em índices de correção que nem sabemos de onde provêm…

As escolas são boas, mas não examinam a correta cidadania do direito de conhecer e assim, despolitizados, deixamos que nos façam todo tipo de hipnose barata com promessas de Aladim e agora, no meio da pandemia da COVID-19, Cloroquina para boi-dormir e quando não dorme, passa, e a mata cai e vira fumaça.

*Por Maria Lopes, colunista e advogada.