Americando
AMERICANDO: A ignorância venceu
“Eh, oh, oh, vida de gado
Povo marcado, eh!
Povo feliz!”(Admirável gado novo, Zé Ramalho, 1979)
Ultimamente vi, creio que está se propagado mais e mais, e tenho por certo que verei ainda muito. Não sou tão otimista quanto ao futuro da humanidade. Quando criança escutava muito os mais velhos e só falava com estes para pedir a benção. Havia um receio e advertência dos outros para não se falar besteira na presença dos adultos, além do respeito obrigatório para com todas as pessoas de mais idade. Hoje parece que ser ignorante em todos os assuntos, sem receios de falar a qualquer hora na presença seja de quem for, com muito ódio, e com alcance mundial pelas redes, é um orgulho para muitos. É sobre isso: vi a ignorância reinar; continuo vendo o absurdo se tornar regra e não sou otimista: vai piorar…
Quando um oprimido humilha outro oprimido pelo sistema econômico que ultimamente perfaz o itinerário social e espiritual de todos, a opressão vence. Podemos mensurar as forças de seguranças espancando e matando jovens de periferia. O mesmo vigor em emprego de violência não se processa em um bairro de elite. Quando um aluno de escola pública, sobretudo, agride um professor com palavras, gestos, física e psicologicamente, algo muito comum nos últimos tempos, pois parece que professor virou o ser mais odiado deste país; temos a ponta do mesmo drama: a opressão venceu. Tudo isso porque a ignorância é operante e pródiga em alienação. Uma não existe sem a outra. Não vou falar nem de vacinas… anticiência não merece ser mencionada, pois os antis, até serem antis, foram vacinados desde a infância e não se transformaram em jacarés.
Há nas redes sociais a indução de que fazer faculdade não compensa. Que escola boa é escola militarizada. Se acabar a escala 6 x 1 o empresário quebra! Principalmente os políticos dizem isso. Vamos lá… Filho de rico fica sem formação acadêmica? O filho de papaizinho fica sem se formar? Filho de empresário estuda em escola militarizada? Rico e político trabalham na escala 6 x 1? A contradição é admirável para quem reflete minimamente…
Muitos que nas redes sociais se postulam a cargos políticos falam de estado mínimo. O velho jargão do estado intervir cada vez menos na economia. Isso beneficia a quem? A maioria da população? Os pobres de fato? Jamais… Isso vai na direção da precarização dos serviços essenciais para o povo como saúde, educação e segurança, pois para fazer obras públicas de infraestrutura, na quais os empresários donos de empreiteiras lucram absurdos, o estado continua sendo máximo, assumindo todos os riscos e pagando muito bem aos empresários empreiteiros que vendem os serviços privados aos estados. Lucrando muito…
No mais, por último, surgiu o tal empreendedorismo… mais um sonho dourado que fez e ainda faz muitos acreditarem que da noite para o dia qualquer atividade informal, pode fazer de qualquer um, um milionário! Há livros e livros sobre isso, tem cursos e mais cursos vendidos na internet incentivando o empreendedorismo, o investimento no mercado financeiro e outras tantas coisas para da cartola tirar um novo milionário. Eles mostram um exemplo que deu “certo”, a história de alguém que enricou sendo empreendedor. Detalhe importante, no atual sistema econômico, um fato isolado de um ou no máximo três cidadãos em um universo de mais de 200 milhões de habitantes, no caso do Brasil, não pode virar regra, mas uma exceção muito pouco provável e que serve para teologicamente continuar iludindo muitos e dando sobrevida a um sistema que destrói a humanidade em todos os aspectos. O tesão por ficar milionário no complexo do controle remoto – aquela coisa de só apertar o botão – tomou, toma e tomará conta dos instintos mais gananciosos de muitos, sobretudo de alguns cristãos. As bets também estão aí para evidenciar isso. Embora digam na publicidade “jogue com responsabilidade”, “aposta não é investimento”, em um paradoxo por demais irônico, o que se tem é uma epidemia de pessoas perdendo dinheiro com jogos nas plataformas de opostas. Os comentários dos jogos de futebol que antes eram direcionados à análise do próprio jogo em si, agora passou a ser análises sobre possibilidades de apostas para os telespectadores do jogo. As tais odds para time tal, jogador tal, possibilidade de gol, cartão amarelo ou vermelho.
Uma reflexão um pouco necessária: se alguém soubesse como ficar milionário fazendo coisas no mercado informal, no investimento em mercado financeiro ou apostas on-line, esse alguém iria ensinar a outro? As bets iriam existir para perder dinheiro, para quebrar, para fazer muitos e muitos pelo celular ficarem ricos com apostar? Um rico iria colocar seu dinheiro em um banco de apostas para perder? Rico ensina alguma coisa relacionada a melhorar a vida financeira para algum pobre? O sistema favorece o pobre em algo?
A ignorância venceu alimentada pela ilusão, ganância e atalhos para se ter e achar que se conhece as coisas por meios imediatos, sem a cadência do tempo.
Por Américo Neto
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