Ceará
Nijair Araújo Pinto: o exercício da crônica
Crochê de Palavras é um livro constituído por uma seleção de crônicas, criativas, inteligentes, com notas de humor
Crochê de Palavras é um livro constituído por uma seleção de crônicas, criativas, inteligentes, com notas de humor
A leitura da obra nos aponta que tudo nos é passado por meio de uma linguagem simples, com assuntos familiares às pessoas comuns, como se quer de uma boa crônica. Principalmente por conta da linguagem, a obra faz lembrar o jeito nordestino de lidar com as situações cotidianas. E é com muita simplicidade que o autor vai narrando as mais divertidas histórias. Histórias simples, mas inteligentes; simples, por serem inteligentes. A maestria do autor com as palavras é outro ponto admirável, sua fineza literária o faz acessível a todos. Também a ironia está presente nos textos. A crítica a questões sociais é outra marca que o autor faz questão de registrar, e sua apreciação nos é passada com leveza e bom humor.
A obra se divide em quatro partes, assim chamadas: Na caserna é assim…, Nos arredores do lar, No calcanhar dos outros e Na vida, antes e depois… Passemos a falar especificamente de cada uma das partes do livro, realçando as crônicas que, a meu ver, por um ou outro motivo, se destacaram.
Na caserna é assim
A palavra caserna significa quartel. Nesta primeira parte do livro, o cotidiano dos bombeiros nos é revelado. Não o cotidiano tenso, agitado, mas os acontecimentos pitorescos da vida militar.
A crônica inicial trata da estranheza e complicação de certos nomes de gente. Os nomes dão ao cronista a possibilidade de ele nos presentear com sua fina criatividade. Ele, tentando ser engraçado, batizou um músico chamado Remi Oliveira de “De Oliveira”. Na própria crônica nós temos a explicação para a alcunha: “Ré em notação musical é ‘D’. Mi é ‘E’. Portanto, você se chama DE Oliveira.”
Uma outra crônica, chamada Coisa de recruta, trata de um assunto bastante comum: os apelidos. Esta narrativa nos dá a conhecer, de maneira bem humorada, um pouco dos militares mais característicos do quartel: “Os inimputáveis (esse é o tipo de militar que você olha para ele e pergunta ‘como essa criatura conseguiu passar no exame psicotécnico?’); os gatunos (coisa rara em nosso país); os beberrões (detalhe à parte); os mulherengos (tipo raro, motivados pelo calor humano dos recrutamentos sociais e/ou vítimas dos excessos hormonais); os ‘um-sete-um’ (aqueles que sempre se dão bem diante de chefes que adoram bajulação)…”. No final, temos um poema no qual se vê patente o amor e dedicação pelo trabalho de salvar vidas: “Salvar, eu salvei, sem nenhum temor… / Dei provas incontestes do ardor / que assaz movimenta assim minh’alma, / sendo luz duma dor que clama calma.”
Presente cotidiano
O caso Lazarelli é uma narrativa sobre a difícil situação de um militar que é flagrado pela esposa namorando na internet. Apenas a “parte escrita” da traição foi descoberta. Depois de dez meses do ocorrido, em meio à forte pressão, o soldado assumiu o caso, ao que a mulher retrucou: (Texto I)
A mulher só expulsa o soldado de casa quando este admite ter dado uma tevê de 14 polegadas para a amante. O tempo passou, os ânimos esfriaram e a mulher aceitou a volta do marido infiel. A desforra da esposa foi criar uma comunidade num site de relacionamento e exigir que o marido enviasse o link para a outra. O nome da comunidade: “Pensa que é bonito ser escovão?” Escovão é uma forma carinhosa e peculiar que os militares têm de tratar algumas mulheres. Inocentemente o soldado falou da tal criação da esposa para seus colegas de profissão. A divulgação do link foi tomada pelos colegas como uma missão a ser cumprida… O que mais chama atenção, todavia, é o comentário, marcado por um forte pessimismo em relação à vida e à felicidade, sobre o exercício de escrever crônicas tecido no início da narrativa: (Texto II)
A crônica Uma tarde no cinema traz alguma reflexão sobre o atual estilo de vida que as pessoas levam. A vida, diz a crônica, vivida em pacotes, tudo no mesmo saco e cabendo como padrão universal. O frequente tom humorístico se faz presente por ocasião da entrada de um brutamonte, cuja cabeça “inspirara um dos personagens do seriado Simpsons, por certo”. É de notar a narração de uma cena grotesca. No cinema, próximo a três mocinhas, o narrador, bem sentado na poltrona, assim se insere: (Texto III)
Do Curso de Letras da Uece
FIQUE POR DENTRO
Notas acerca da natureza do gênero
A crônica é curta e fácil de ler, prestando-se a múltiplos objetivos: pode constituir-se numa pequena narrativa de trama não complicada quanto à do conto; pode relatar algum fato verídico presenciado pelo cronista; pode, também, servir para digressões ou meditações de cunho mais ou menos filosófico; enfim, um gênero entre o literário e o jornalístico. Em suas origens, a crônica era o relato de acontecimentos, hábitos e costumes de uma determinada comunidade; hoje, é mais o flagrante do cotidiano, o desenvolvimento linear de algum pensamento que seu autor considera interessante, e, com freqüência, espaço para rememorar fatos e amigos do passado. Aparece, assim, como uma conversa que o autor mantém, periodicamente, com seus leitores, em tom leve, mesmo se o tema é profundo; e conversa que permite ao cronista falar de si próprio. A crônica estabelece fronteiras imprecisas com o ensaio, o memorialismo, o conto, o poema em prosa, a literatura de viagem. É, pois, um flagrante do cotidiano, quase sempre sem enredo; se narrativa, porém, o fato não pode implicar tensão dramática.
Trechos
TEXTO I
A gente tá se gostando, é! Passe para dentro de casa, seu véi abestalhado e safado! Trate logo é de cuidar dos seus filhos! Com um bucho desses e se danando! Pensa que ainda é brotinho, é? Não tem dado assistência nem em casa…”
TEXTO II
As crônicas, não fossem as vivências de seus criadores, talvez estivessem mortas! Entretanto, sobreviveriam sem as inter-relações humanas trocadas no dia a dia das nossas sofridas e, por vezes, felizes vidas? O que seriam das crônicas sem o tempero da vida real, sem as confissões gratuitas e pagãs, livres das celibatárias vestes e rituais dos confessionários? Se desprovidas de valor espiritual, pelo menos seduzem os espíritos afeitos ao ato do sorriso farto, sem comedimento.”
TEXTO III
Difícil explicar, mas me veio uma vontade quase incontrolável de liberar os lastros do esfíncter e soltar um pum! (…) Se não fecho a boca, teria arrotado merda pura! Que sufoco! Eu suava. (…) Como as três amigas se sentiriam ao sorverem o ar quente em ascensão enxertado de derivados de enxofre impregnando-lhe as narinas?
Antônio Vinâncio Silva
Especial para o ler *
Fonte: Diario do Nordeste
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