(Foto: Reprodução)

Como é possível esquecer um trauma, se ele está marcado na pele em forma de cicatrizes? Algumas mulheres que foram vítimas de violência doméstica, de doenças ou de cirurgias mal feitas têm escolhido a tatuagem para amenizar a dor.

O projeto social ‘We Are Diamonds’, que já fez mais de 150 tatuagens em mulheres que queriam camuflar suas cicatrizes, fechou parcerias com o Projeto Bastê, que apoia vítimas de violência doméstica, com o Projeto Driblando o Câncer, do Instituto Brasil + Social, e com a ONG GAMA (Grupo de Amparo Momento de Amar). Com isso, as mulheres assistidas por essas instituições também podem fazer tatuagens gratuitamente.

Na última segunda-feira (7), foi a vez da funcionária pública Talita Lins, de 35 anos, dar um passo à retomada de sua vida.

Em 2017, ela foi vítima de ferimentos provocados pelo então companheiro. Ela e sua filha foram empurradas ao chão, e uma porta de vidro se espatifou contra ela. “Esta foi a última das inúmeras agressões que passei”, lembra. O resultado, além do trauma psicológico, foram as cicatrizes em seu braço.

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“Costumo sempre dizer que minhas feridas e cicatrizes não vão me impedir de sonhar. Sempre quis ter uma tatuagem, então vou usá-la para ressignificar tudo o que passei”, diz Talita.

Momentos antes de ser tatuada, ela disse que não temia sofrer com a agulha. “A tatuagem é que vai dar um novo significado à minha dor.”

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Já a recepcionista Tamires Mussio Morales, de 34 anos, não esconde a ansiedade em fazer uma grande tatuagem na barriga, onde hoje estão as marcas de uma tentativa de feminicídio.

Em novembro do ano passado, o então namorado — com quem convivia havia um ano e cinco meses — teve uma crise de ciúmes e a feriu com uma faca de pão em várias partes do corpo durante um churrasco. Foram mais de cem pontos na barriga, braços, mão e pernas.

“Quero poder olhar de uma maneira mais bonita para meu corpo, não sentir tanta dor com as lembranças”, afirma Tamires.

Ela ainda terá que esperar cerca de um ano até ter sua tatuagem, pois suas feridas ainda são recentes e não estão totalmente cicatrizadas. “Vou transformar minha dor em arte”, completa.

O feminicídio é a última etapa do ciclo de de violência doméstica sofrida pela mulher. Começam com agressões verbais que escalonam até a morte.

Nos primeiros seis meses de 2021, quatro mulheres foram mortas por seus companheiros ou ex por dia no país: 666 vítimas de feminicídio de janeiro a junho, o maior da série histórica iniciada em 2017, quando as autoridades passaram a compreender melhor a Lei do Feminicídio, de 2015.

A lei também prevê que assassinatos cometidos por companheiros ou ex-companheiros da vítima sejam registrados como tal, mas quase 15% dos homicídios de mulheres cometidos em 2020, em que os autores do crime eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas, não foram registrados devidamente como feminicídio, segundo o 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho.

O fim de um ciclo
Para a enfermeira Mariana Cristina Brizzi, de 36 anos, a tatuagem feita no início do mês colocou um fim a uma luta iniciada quando ela tinha 23, ao descobrir um câncer de mama.

Ela tinha acabado de ter o filho quando recebeu o diagnóstico. Teve que tirar o seio esquerdo e, nos anos seguintes, além do tratamento, enfrentou depressão e obesidade. “Não pude fazer reconstrução de imediato, e a cicatriz ficou bem feia.”

Mesmo com o excesso de peso, em 2015 ela passou por uma cirurgia para reconstrução do seio, que segundo ela, teve um resultado longe do que esperava.

Um tempo depois, em 2017, ela começava a retomar sua vida e sua autoestima – tinha perdido 75 quilos e os cabelos já estavam crescendo normalmente – quando veio um novo baque: um nódulo, dessa vez no seio esquerdo. Com isso, ela teve que passar por uma nova mastectomia.

“Desabei. Só pensava que ia passar por tudo e chorar novamente tudo que tinha chorado”, afirma. Dessa vez, porém, ela conseguiu fazer a reconstrução de duas mamas.

As cicatrizes provenientes das cirurgias são extensas – do meio das costas até o tórax. Mas foram cobertas com tatuagens com desenhos de diamantes em uma sessão de dez horas.

“Dessa vez eu chorei de alegria. Essa tatuagem é o fechamento de um ciclo, de 12 anos de lutas. Hoje, minha autoestima está nas alturas”, revela, com lágrimas nos olhos.

Projeto We Are Diamonds
Tanto Mariana, como Talita e Tamires ganharam as suas tatuagens do Projeto We Are Diamonds, que foi criado em 2017 pela tatuadora Karlla Mendes, e tem como foco cobrir as cicatrizes de mulheres que sofreram marcas provenientes de violência doméstica, queimaduras e cirurgias mal feitas, entre outros casos.

Além de tatuar as mulheres, Karlla é a responsável por escolher quem irá receber as tatuagens, triando as histórias que recebe pelo site do projeto e pelas instituições parceiras.

“Sempre tento me colocar no lugar dessas mulheres. São várias histórias marcantes. Recentemente, por exemplo, me deparei com o caso de uma mulher que tenta recuperar a sua vida há mais de três anos, desde que foi atropelada por um trem em São Paulo. Isso me comoveu muito, pois sei que as tatuagens vão ajudá-la a se aceitar”, afirma, completando que a mulher em questão será tatuada no próximo dia 19.

Karlla é especialista na JewerlyTattoo, e por isso, suas tatuagens sempre possuem desenhos com joias e pedras preciosas. O que era apenas um estilo, virou a marca do projeto. “O diamante mostra nossa resiliência e a necessidade de sempre estarmos nos lapidando”, diz a profissional, que tem mais de 20 anos de carreira.

Dividindo-se entre Melbourne, na Austrália, – onde possui um estúdio com a filha – e São Paulo – onde é proprietária do StylloTattoo, na Zona Norte de São Paulo, Karlla retorna ao Brasil após dois anos sem pisar em seu país natal, devido à pandemia.

Segundo ela, a procura por tatuagens para cobrir cicatrizes tem crescido tanto que ela não está dando conta da demanda, e está desenvolvendo um workshop dirigido a tatuadores, onde ensina a sua técnica.

Karlla destaca que o processo exige técnica, tempo e experiência, e que ela só faz suas tatuagens com autorização do médico das pacientes. “Também tenho um médico em minha equipe para avaliar as cicatrizes”, explica.

Para Karlla, poder ajudar as pessoas a superar seus traumas é a sua motivação. “Estou doando parte de minha arte e talento para amenizar a dor das mulheres, devolvendo-lhes a autoestima e a vontade de viver.”

Fonte: G1 Ceará