Brasil
Presidenciáveis começam campanha em seus redutos e apresentam diferentes estratégias para 2026
Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema escolheram territórios simbólicos para abrir oficialmente a corrida pelo Palácio do Planalto; os primeiros atos mostram mensagens distintas e uma disputa que começa pela mobilização das próprias bases
A campanha presidencial de 2026 começou oficialmente neste domingo, 16 de agosto, e os principais candidatos escolheram seus redutos políticos ou territórios estratégicos para iniciar a corrida pelo Palácio do Planalto. Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema adotaram agendas diferentes, mas com uma característica em comum: antes de tentar ampliar suas bases, cada um procurou demonstrar força justamente onde sua trajetória política é mais conhecida. O cenário reúne 13 candidaturas registradas à Presidência até o momento, segundo levantamento atualizado com dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Lula (PT): memória política, continuidade e mobilização popular
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu sua campanha em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, região onde iniciou sua trajetória sindical e política. O ato aconteceu no estádio da Vila Euclides, local histórico das assembleias dos metalúrgicos durante o período final da ditadura militar. A escolha do espaço foi carregada de simbolismo e colocou a trajetória pessoal de Lula no centro da primeira mensagem de campanha. nquistas de seu governo e propostas para um novo mandato. Lula também deu destaque à participação feminina e apresentou temas como soberania nacional, desenvolvimento econômico e igualdade. A campanha procura, dessa forma, transformar a própria trajetória política do presidente em argumento eleitoral, ao mesmo tempo em que apresenta a continuidade do atual projeto de governo.
A escolha de São Bernardo é significativa porque Lula começa justamente onde sua história política ganhou dimensão nacional. O desafio, daqui para frente, será transformar essa forte identificação com sua base tradicional em capacidade de ampliar o eleitorado e conquistar segmentos que ainda não decidiram o voto.
Flávio Bolsonaro (PL): Copacabana, segurança e legado bolsonarista
Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana, no Rio de Janeiro, para iniciar oficialmente sua campanha. O local é um dos principais símbolos da mobilização bolsonarista no Rio e serviu de cenário para um ato de grande concentração popular. Estimativa da USP apontou cerca de 8,9 mil pessoas no evento.
A mensagem foi centrada em segurança pública, oposição ao governo Lula e defesa do legado de Jair Bolsonaro. Flávio reproduziu inclusive um áudio do pai durante o ato e procurou associar sua candidatura à continuidade do campo político que levou Jair Bolsonaro à Presidência em 2018. Também falou em combate às organizações criminosas, redução de impostos e corte de gastos públicos.
Depois do ato em Copacabana, Flávio seguiu para São Januário, onde assistiu ao jogo entre Vasco e Santos e encontrou o presidente do clube, Pedrinho, e o jogador Neymar. A presença no estádio fez parte da agenda do primeiro dia de campanha.
A estratégia é clara: começar pelo território onde possui uma das bases mais fortes e transformar a identidade com o bolsonarismo em capital eleitoral. O desafio será ampliar esse apoio para além do eleitorado já identificado com o ex-presidente.
Ronaldo Caiado (PSD): Goiás como cartão de visitas
Ronaldo Caiado escolheu seu próprio Estado para iniciar a campanha. O candidato do PSD começou o dia com uma missa em Goiânia e, em seguida, iniciou uma carreata por municípios do Entorno do Distrito Federal. O roteiro passou por Águas Lindas de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso de Goiás e Cidade Ocidental, terminando em Luziânia, onde estava previsto um comício.
A estratégia de Caiado foi utilizar sua experiência como governador de Goiás como uma espécie de cartão de visitas nacional. O candidato destacou resultados de sua administração em áreas como segurança pública, saúde, educação e programas sociais e apresentou propostas relacionadas principalmente à segurança e ao combate à criminalidade.
Caiado procura ocupar um espaço próprio no campo de oposição. Em seu discurso, reforçou que é contrário ao governo Lula e também procurou se diferenciar de Flávio Bolsonaro, apresentando-se como uma alternativa de terceira via dentro do campo conservador.
Romeu Zema (Novo): Norte de Minas, segurança e gestão
Romeu Zema escolheu Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, para iniciar oficialmente sua campanha. A agenda começou com uma missa, passou pelo Mercado Municipal e incluiu encontro com representantes do agronegócio e candidatos do Novo.
O candidato colocou segurança pública entre as prioridades do primeiro discurso e defendeu a construção de um grande presídio para líderes de facções criminosas, além do endurecimento das leis penais e do reforço da proteção às mulheres. Também criticou ministros do Supremo Tribunal Federal e voltou a defender uma agenda de gestão baseada em transparência e redução de privilégios.
A escolha de Montes Claros tem também uma dimensão territorial. Zema procura apresentar sua experiência administrativa em Minas Gerais como referência para um eventual governo federal e, ao mesmo tempo, construir uma candidatura nacional a partir de uma região importante do Estado que governou.

Quatro largadas, quatro mensagens
O primeiro dia permite identificar estratégias distintas. Lula começou pela memória de sua trajetória e pela defesa da continuidade; Flávio Bolsonaro escolheu a força do bolsonarismo e concentrou o discurso na segurança; Caiado apresentou sua experiência administrativa em Goiás como credencial para o país; e Zema utilizou a gestão mineira e a segurança pública como pilares de sua candidatura.
Os locais escolhidos também dizem muito. Lula foi ao ABC Paulista, onde nasceu politicamente. Flávio foi a Copacabana, símbolo da mobilização bolsonarista. Caiado percorreu municípios do Entorno de Goiás. Zema escolheu Montes Claros, no Norte de Minas. São estratégias diferentes de apresentar ao eleitor uma primeira imagem da candidatura.
A campanha, entretanto, está apenas começando. Os atos de abertura servem para mobilizar as bases e estabelecer uma narrativa, mas a disputa nacional ainda terá debates, propaganda eleitoral, novas alianças, viagens pelo país e a busca pelo eleitor que não está necessariamente vinculado a nenhum dos campos políticos.
No Ceará, esse movimento nacional também terá reflexos. A eleição presidencial interfere diretamente nas disputas estaduais e na formação dos palanques regionais. Por isso, acompanhar quem apoia quem, quais candidatos conseguem mobilizar lideranças locais e como os presidenciáveis serão recebidos no Nordeste será fundamental para entender a eleição de 2026.
A campanha começou pelos redutos. Agora começa a fase mais difícil: sair da base, conquistar o eleitor indeciso e transformar força política em voto nacional.
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