Saúde
USP alerta para alterações hormonais e outras doenças por uso excessivo de plásticos e cosméticos
Da garrafa plástica ao protetor solar, do sabonete ao papel emitido pela máquina de cartão de crédito, a concentração de compostos químicos de materiais que facilitam a vida das pessoas é motivo de preocupação para pesquisadores da USP de Ribeirão Preto (SP).
Chamadas de desreguladores endócrinos, substâncias capazes de alterar a produção de hormônios no organismo associadas a câncer, obesidade e até infertilidade foram encontradas em variedades e níveis alarmantes em crianças de todas as regiões do país, segundo um recente estudo publicado na revista científica Environment International.
Ao todo, foram coletadas amostras de urina de 300 crianças com idades entre 6 e 14 anos. Em mais da metade delas, foram encontrados ao mesmo tempo 25 tipos de disruptores endócrinos, segundo Rocha.
Em nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que aditivos como esses analisados na pesquisa são adicionados intencionalmente pelas empresas para exercer funções tecnológicas, mas estão sujeitos a rígidas regulações e só podem ser usados em quantidades autorizadas pela legislação pertinente.
“A permissão de uso dessas substâncias em alimentos e embalagens que entram em contato com alimentos, por exemplo, só é realizada após comprovação de sua segurança de uso, por meio de estudos toxicológicos e de avaliações de exposição, além da comprovação de sua finalidade tecnológica”, comunicou.
Disruptores endócrinos
Autor dos estudos, Rocha analisou 65 disruptores, sobretudo os classificados como ftalatos – encontrados em produtos de cuidado pessoal e materiais de limpeza-, bisfenois – usados na fabricação de plásticos, embalagens de alimentos e papeis térmicos -, benzofenonas – usadas em protetores solares, além de batons e cremes com filtros- ; e parabenos, que agem como conservantes em alguns tipos de medicamentos.
Os resultados apontados, segundo ele, servem de alerta para a multiexposição diária das pessoas a essas substâncias, mesmo quando utilizadas de maneira regulada nos produtos.
Em 98% das amostras, foi encontrado o bisfenol A, componente já usado em produção de mamadeiras, mas proibido. Em um quarto das crianças analisadas, foram encontrados índices considerados tóxicos de ftalatos. Para outros tipos de desreguladores ainda não existem parâmetros suficientes para confirmar o nível de toxicidade.
“As crianças cada vez mais usam cosméticos, em geral, e quanto mais cedo teoricamente pior o efeito”, alerta.
Segundo o pesquisador, o estudo, iniciado em 2016 como parte de seu pós-doutorado, também apontou que a maior concentração dessas substâncias foi encontrada em crianças das regiões Norte e Nordeste.
Em alguns dos casos, os componentes também apareceram em maior concentração em comparação com avaliações de países como Estados Unidos, Canadá e China.
Por meio de uma mineração de dados, metodologia que consiste em buscar padrões dentro de uma grande quantidade de informações disponíveis, ainda foi possível analisar a interação de mais de uma dessas substâncias nos organismos. Com isso, o estudo evidenciou que as células que haviam sofrido algum tipo de dano genético foram submetidas à exposição de diferentes disruptores endócrinos ao mesmo tempo.
Rocha explica que, diante da prevalência dos disruptores endócrinos nos diferentes produtos do dia a dia, a melhor maneira de amenizar o contato é por meio da mudança dos hábitos de consumo.
De acordo com o pesquisador, o estudo faz parte de um projeto mais amplo ligado ao Ministério da Saúde, que encontra a adesão de mais pesquisadores. Além de crianças, a expectativa é confirmar, em iniciativas futuras, as interações dessas substâncias em adultos, grávidas e recém-nascidos.
“A partir de então a gente espera que os órgãos regulamentadores passem a tomar atitudes , para que haja um controle maior dessas substâncias.”
Fonte: G1/CE
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