Brasil
Descarte de pintinhos machos na produção de ovos reacende discussão sobre bem-estar animal
Uma investigação da organização Mercy For Animals (MFA) voltou a colocar em debate uma prática utilizada na indústria de ovos: o descarte de pintinhos machos logo após o nascimento. Segundo a entidade, cerca de 35 mil aves foram eliminadas em apenas um dia em um grande incubatório localizado na Região Sul do Brasil. Os animais, que não são utilizados para a produção de ovos e não apresentam características consideradas adequadas para a criação de frangos de corte, são descartados com menos de 24 horas de vida.
De acordo com a investigação, os machos são separados das fêmeas depois do nascimento porque a cadeia produtiva utiliza linhagens específicas para a produção de ovos. A MFA também identificou casos de descarte de fêmeas, embora em menor quantidade, por motivos como deformidades, anomalias, nascimentos prematuros ou excesso de produção diante da demanda. A organização afirma que a prática levanta preocupações relacionadas à capacidade dos animais recém-nascidos de sentir dor e medo.
Uma das alternativas apontadas para reduzir esse tipo de descarte é a chamada sexagem in ovo, tecnologia capaz de identificar o sexo da ave ainda durante o desenvolvimento dentro do ovo. Dessa maneira, ovos que dariam origem a machos poderiam ser retirados antes da eclosão. A primeira máquina desse tipo no Brasil foi instalada em 2025, em um incubatório de Nova Granada, no interior de São Paulo. O principal obstáculo, porém, é o custo da tecnologia, que pode representar um acréscimo de R$ 5 a R$ 10 por ave.
A discussão já avançou em outros países. Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram medidas que proíbem a trituração de pintinhos, enquanto Noruega e Suíça passaram a utilizar alternativas por pressão do próprio mercado. No Brasil, a Constituição Federal determina que os animais não sejam submetidos à crueldade, mas ainda não existe uma legislação específica proibindo a prática. Atualmente, dois projetos de lei tratam do assunto no Congresso Nacional.
O PL 783/2024, apresentado pela deputada Luciene Cavalcante, já passou por comissões da Câmara, mas recebeu parecer contrário na Comissão de Agricultura e ainda deverá seguir para análise do plenário. Já o PL 3034/2026, apresentado pela deputada Heloísa Helena em junho, está em fase inicial de tramitação. Procurada pela reportagem, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa o setor de aves e ovos, ainda não havia se manifestado sobre o tema. (Foto: Divulgação/CNN Brasil )
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