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IGUATU: Morte de adolescente de 12 anos após atendimentos no HRI levanta questionamentos sobre diagnóstico de apendicite

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Família relata três passagens pelo Hospital Regional de Iguatu, demora na investigação de dores abdominais, dificuldades durante o atendimento e possível intervalo entre a realização de tomografia e a avaliação do resultado; reportagem teve acesso a áudio atribuído à mãe da adolescente e encaminhou questionamentos à Secretaria de Saúde por meio da Ouvidoria

A morte de Yris, de 12 anos, em Iguatu, passou a levantar questionamentos sobre a sequência de atendimentos recebidos pela adolescente no Hospital Regional de Iguatu (HRI) antes do agravamento de seu quadro clínico. Segundo informações apresentadas à reportagem, a menina teria procurado a unidade hospitalar por três vezes em razão de fortes dores abdominais e, somente na terceira passagem, foi submetida a uma tomografia computadorizada. Posteriormente, teria sido identificado um quadro de apendicite aguda, cuja evolução resultou em grave deterioração clínica e, posteriormente, na morte da adolescente. As circunstâncias desse atendimento, contudo, ainda precisam ser esclarecidas por meio da análise dos registros médicos e de uma apuração formal, não sendo possível, neste momento, afirmar que houve negligência, erro médico ou estabelecer relação causal entre eventual demora no atendimento e o desfecho.

A reportagem teve acesso a um áudio atribuído à mãe de Yris, no qual uma mulher que se apresenta como mãe da adolescente relata, em estado de forte abalo emocional, os momentos vividos pela família durante o atendimento e pede providências para que as circunstâncias da morte sejam investigadas. O conteúdo é particularmente grave porque apresenta uma série de alegações sobre a assistência prestada à menina, desde as condições encontradas na chegada ao hospital até a espera pela avaliação médica e a possível intervenção cirúrgica. Como a reportagem não conseguiu contato direto com a família até o fechamento desta matéria, o áudio é tratado como um relato atribuído à mãe da adolescente, e não como confirmação independente de todos os fatos nele narrados.

Segundo o relato apresentado no áudio, Yris teria chegado ao hospital com fortes dores abdominais e enfrentado dificuldades já nos primeiros momentos do atendimento. A família afirma que não havia maca ou cadeira de rodas disponível para transportar adequadamente a paciente e que a intensidade da dor teria provocado um desmaio dentro da unidade. A mãe também questiona a conduta de um dos médicos que teria participado do atendimento e relata que o profissional teria tratado com aparente desdém a possibilidade de uma intervenção cirúrgica, inclusive com comentários que a família teria considerado inadequados ou feitos em tom de brincadeira diante da gravidade da situação. Trata-se de uma acusação que precisa ser rigorosamente confrontada com os registros hospitalares e com a versão do profissional eventualmente citado.

Em outro relato encaminhado à reportagem, o pai da adolescente também teria demonstrado preocupação com a condução do atendimento e buscado ajuda para identificar nominalmente o médico responsável pelo plantão, com a intenção de formalizar reclamações e levar o caso aos órgãos competentes. A família questiona ainda o período em que Yris teria permanecido em jejum enquanto aguardava a avaliação da equipe responsável por uma possível cirurgia. Segundo os relatos, a adolescente enfrentava fortes dores e sede durante horas, enquanto os familiares aguardavam uma definição sobre a conduta médica e buscavam uma solução para o quadro.

A denúncia, entretanto, não se restringe às circunstâncias das últimas horas de atendimento. Um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos é a sequência das três passagens da adolescente pelo hospital. Conforme as informações apresentadas à reportagem, nas duas primeiras ocasiões Yris teria sido atendida, medicada para controle da dor e posteriormente liberada. Somente na terceira procura pelo serviço, diante da persistência ou agravamento dos sintomas, teria sido realizada uma tomografia computadorizada. A questão central é saber quais sinais clínicos estavam registrados em cada atendimento, quais hipóteses diagnósticas foram consideradas, que exames foram solicitados e quais critérios médicos fundamentaram as duas primeiras altas.

A tomografia realizada na terceira passagem pelo HRI constitui outro ponto sensível do caso. Segundo as informações obtidas pela reportagem, teria ocorrido um intervalo entre a realização do exame e a avaliação do resultado pela equipe médica, período que teria coincidido com a transição do plantão noturno para o matutino. O diagnóstico de apendicite aguda teria sido identificado somente na manhã seguinte, quando o estado clínico da adolescente já estaria gravemente comprometido. Essa informação, entretanto, precisa ser confirmada documentalmente, especialmente porque somente a reconstrução precisa dos horários poderá determinar se houve demora relevante entre a realização do exame, a disponibilização das imagens, a emissão do laudo, sua avaliação e a tomada de decisão clínica.

A existência de uma troca de plantão, isoladamente, não caracteriza qualquer irregularidade. O que precisa ser esclarecido é como o HRI assegura a continuidade da assistência durante a mudança das equipes e quais são os protocolos adotados para garantir que exames realizados durante um plantão sejam acompanhados e avaliados pela equipe que assume o atendimento. É necessário saber, portanto, quando a tomografia foi realizada, quando o resultado ficou disponível, quem tinha a responsabilidade de acompanhá-lo, quando o médico responsável tomou conhecimento das informações e em que momento a equipe cirúrgica foi acionada.

A reconstrução desse percurso deverá incluir também os registros de acolhimento e classificação de risco, inclusive aqueles relacionados ao Protocolo de Manchester, além dos sinais vitais, prescrições, evoluções médicas, solicitações de exames, imagens, laudos e demais anotações existentes no prontuário. Esses documentos poderão esclarecer se, nas duas primeiras passagens, havia sinais clínicos que justificassem investigação complementar ou se a evolução posterior do quadro ocorreu de maneira rápida e imprevisível. Essa distinção é fundamental para qualquer avaliação técnica sobre eventual falha na assistência.

Também será necessário esclarecer a causa oficial da morte registrada pela equipe médica e nos documentos hospitalares, bem como a evolução clínica da adolescente entre o diagnóstico de apendicite e o desfecho. A informação de que o quadro se agravou até resultar na morte não permite, por si só, estabelecer que o agravamento tenha ocorrido em razão de eventual atraso no atendimento. Para chegar a essa conclusão, será necessária uma avaliação médica e documental capaz de considerar o estágio da doença, os procedimentos realizados, os horários registrados e as condições clínicas apresentadas pela paciente em cada etapa.

Diante da gravidade dos relatos, a família pretende buscar os órgãos responsáveis pela fiscalização e apuração. Entre as medidas podem estar o encaminhamento do caso ao Ministério Público do Estado do Ceará, por meio da Promotoria de Justiça de Iguatu, e a solicitação de apuração junto ao Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (CREMEC). A obtenção da cópia integral do prontuário também deverá ser uma das providências mais importantes, pois permitirá confrontar os relatos apresentados pela família com a documentação produzida durante os atendimentos.

A reportagem também procurou ouvir oficialmente o poder público. Foram encaminhados questionamentos por e-mail à Secretaria de Saúde, por meio da Ouvidoria Municipal, solicitando esclarecimentos sobre o atendimento prestado à adolescente, as circunstâncias das diferentes passagens pelo hospital, os procedimentos adotados diante da persistência das dores, a realização e avaliação da tomografia e os protocolos utilizados durante a troca de plantão. Até o fechamento desta matéria, não havia sido recebido posicionamento oficial em resposta aos questionamentos encaminhados.

A reportagem também tentou estabelecer contato diretamente com a família de Yris para confirmar as informações, obter outros detalhes sobre o caso e ouvir os familiares sobre as providências que pretendem adotar. Não foi possível, entretanto, conseguir contato com a família até o fechamento desta matéria. Por essa razão, o áudio ao qual a reportagem teve acesso é apresentado como um relato atribuído à mãe da adolescente e suas informações são tratadas com a necessária cautela jornalística, especialmente nas acusações dirigidas a profissionais e na interpretação da sequência clínica que antecedeu a morte.

O caso exige, portanto, uma reconstrução objetiva dos fatos, e não apenas a contraposição entre a dor da família e a versão da instituição. É preciso determinar por que a adolescente foi liberada nas duas primeiras passagens pelo hospital, quais sintomas e sinais clínicos estavam registrados nesses atendimentos, quando a tomografia foi solicitada e realizada, em que momento o resultado ficou disponível, quando foi efetivamente analisado, quais profissionais acompanharam a paciente em cada etapa, como ocorreu a comunicação entre os plantões e quando a equipe cirúrgica foi acionada. Também precisam ser apurados os relatos sobre a falta de maca ou cadeira de rodas, o desmaio, o suposto tratamento inadequado por parte de um médico e o período de jejum e sofrimento descrito pela família.

A morte de uma adolescente de 12 anos, depois de sucessivas procuras por atendimento médico em razão de dores abdominais e de um quadro posteriormente identificado como apendicite aguda, é um caso que merece investigação rigorosa. Se os documentos demonstrarem que todos os protocolos foram observados e que a evolução da doença ocorreu apesar das medidas adotadas, essa conclusão deverá ser apresentada de forma transparente. Se, por outro lado, a apuração identificar atrasos injustificados, falhas na comunicação entre equipes, inadequações na assistência ou qualquer outra irregularidade, caberá aos órgãos competentes estabelecer responsabilidades nas respectivas esferas.

Neste momento, não cabe antecipar culpados nem transformar uma denúncia em condenação. Cabe, sobretudo, esclarecer o que aconteceu com Yris durante as diferentes passagens pelo Hospital Regional de Iguatu e se o atendimento prestado foi compatível com a evolução e a gravidade do quadro apresentado. A resposta deverá estar nos prontuários, nos exames, nos horários registrados, nos protocolos adotados e nas conclusões dos órgãos responsáveis pela apuração.

A direção do Hospital Regional de Iguatu, a Secretaria Municipal de Saúde, a Secretaria da Saúde do Ceará, os profissionais eventualmente citados e os demais órgãos responsáveis pela assistência e fiscalização permanecem com espaço aberto para manifestação. Caso novos documentos, esclarecimentos oficiais ou informações relevantes sejam apresentados, a reportagem poderá atualizar o conteúdo.

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