Regional
Tecnologias garantem produção na escassez
Mesmo com a escassez de chuvas no segundo semestre do ano, o agricultor José Abílio Ferreira, do sítio Catolé, em Milagres, mantém sua horta diversa. Coentro, cebolinha, gengibre, açafrão, tomate cereja, entre outras, são algumas das culturas que consegue colher, mesmo no mês de novembro, onde a média pluviométrica é uma das menores do ano no Ceará: 5,8 milímetros.
Isso só foi possível a partir das tecnologias sociais de “segunda água”, que ao contrário das cisternas menores (de 16 mil litros), foram desenvolvidas para garantir a segurança alimentar e nutricional a partir de cisternas com 52 mil litros.
O mesmo vale para barragens subterrâneas, barreiro trincheira, tanque de pedra, entre outros. Apesar do ganho para as pessoas do campo, a implementação desta política pública diminuiu nos últimos anos. Em 2020, parou por causa da pandemia do novo coronavírus.
Abílio recebeu, em 2014, sua primeira cisterna de enxurrada, com capacidade de armazenamento de 52 mil litros e a uma barragem subterrânea. Ambas transformaram a vida deste trabalhador.
Ele era acostumado a lidar apenas com culturas de sequeiro, como feijão e milho. Com o recuso hídrico garantido conseguiu trabalhar em outras épocas do ano. “Era difícil. Não tinha essa produção. Tudo que tenho hoje, a gente comprava e, hoje, até comercializa”, comemora.
Com a cisterna cheia, apostou em mudas e plantas frutíferas como mamão, acerola e morango. Já na barragem subterrânea – tecnologia que retém a água da chuva e escoa em cima e dentro do solo, mantendo o terreno úmido por um período de dois a cinco meses após a época chuvosa – plantou banana e capim para o gado e bode.
“Isso aqui ajudou bastante. Hoje consigo vender na feira e chego a tirar R$ 200 num dia. Na época do inverno é muito mais”, celebra o agricultor. Na avaliação de Marcos Jacinto de Sousa, diretor do Instituto Elo Amigo, de Iguatu, e coordenador da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil) no Ceará, as cisternas promoveram a democratização do acesso a água e, nos casos das tecnologias sociais de “segunda água”, criam processos produtivos que garantem a segurança e soberania alimentar.
Preocupação
A ASA Brasil foi responsável por desenvolver o Programa Uma Terra e Duas Águas, o P1+2, em 2007. A iniciativa se tornaria uma política pública, assim como o Programa Um Milhão de Cisternas, o P1MC. No entanto, nos últimos anos, a implementação caiu consideravelmente. Para se ter uma projeção, em 2014, foram instaladas 6.356 pela ASA Brasil no Ceará. 2019 registrou apenas 270 pela organização. Em nota, o Ministério da Cidadania, responsável por financiar o P1+2, ressaltou que já implantou 25.279 tecnologias de “segunda água” no Ceará.
O orçamento atual é de R$ 122.966.745,00, considerando o constante da Lei Orçamentária Anual e o recurso orçamentário de emendas. Contudo, a execução do orçamento de 2020 foi comprometido pelas medidas de segurança necessárias para conter a pandemia da Covid-19.
Nossa equipe de reportagem também questionou a Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Ceará (SDA) em torno da quantidade de tecnologias implementadas nos últimos anos e qual será o investimento para 2021. Até a publicação desta matéria não tivemos retorno do órgão.
Fonte: Diário do Nordeste
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