Iguatu
EXCLUSIVO: Fumaça, barulho e relatos de doenças: por que fundição segue operando em bairro residencial de Iguatu?

Fumaça expelida pela fábrica durante funcionamento. A fundição trabalha 24 horas.
Iguatu, Ceará – 05/02/2026 – Moradores do bairro Esplendor, em Iguatu, afirmam conviver há anos com problemas de saúde, ruído intenso e emissão de fumaça provenientes de uma fundição de alumínio instalada nas proximidades da área residencial.
A unidade industrial derrete alumínio reciclado e prepara discos metálicos que posteriormente são transformados em panelas, incluindo panelas de pressão, etapa inicial da cadeia produtiva do utensílio doméstico.
Os relatos reunidos pela reportagem indicam que o impacto ultrapassa o incômodo cotidiano e supostamente já interfere na saúde e na qualidade de vida das famílias, segundo moradores.
“Ele teve pneumonia duas vezes”
Uma moradora relata que o filho pequeno enfrentou episódios graves de doença respiratória enquanto vivia próximo à fábrica.
“Ele teve pneumonia duas vezes. Uma com 6 meses e outra com 1 ano. A médica falou que ele deveria ficar longe de materiais poluentes.”
A relação direta entre a doença e a atividade industrial não foi comprovada por laudo oficial, sendo apresentada pela família como suspeita associada à exposição ambiental.
Segundo a mãe, a família tentou deixar o bairro, mas não conseguiu por dificuldades financeiras.
“A gente começou a procurar casa pra sair daqui, mas não tinha como manter aluguel com duas crianças.”
Ela afirma ter procurado a Secretaria Municipal do Meio Ambiente em maio de 2025, quando teria recebido a informação de que providências seriam adotadas. Até hoje, segundo o relato, nenhuma solução concreta foi apresentada.
Falta de ar, tosse e casas fechadas
Moradores relatam sintomas recorrentes como:
- falta de ar;
- tosse constante;
- irritação na garganta;
- necessidade de manter portas e janelas fechadas quando a fumaça aumenta.
A fundição trabalha com fusão de alumínio reciclado — processo que pode gerar material particulado fino e resíduos provenientes da queima de tintas, óleos e contaminantes presentes na sucata metálica.
Especialistas em saúde ambiental apontam que o principal risco ocorre na exposição crônica, ao longo de anos, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias pré-existentes.
A reportagem não teve acesso a medições oficiais recentes da qualidade do ar na região e moradores relataram que não tem conhecimento se alguma vez essas medições foram realizadas.
Em vídeo, moradora reclama do barulho e da fumaça tóxica da fundição
Relatos apontam adoecimento de trabalhadores e possível ausência de EPI
Além das reclamações dos moradores, surgiram relatos envolvendo as condições internas de trabalho na fundição.
De acordo com moradores do entorno, ex-funcionários teriam deixado o emprego após apresentarem problemas frequentes de saúde, supostamente associados às atividades realizadas próximas aos fornos industriais.
Segundo esses relatos, alguns trabalhadores atuariam sem utilização adequada de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
“Teve gente que saiu porque vivia doente, com ferimentos e passando mal direto. Preferiu voltar pra zona rural e trabalhar na roça”, afirmou um morador.
A reportagem não obteve documentos trabalhistas, laudos médicos ou autos de fiscalização que confirmem oficialmente essas situações, tratando-se de declarações da comunidade.
O espaço permanece aberto para manifestação da empresa quanto às condições de segurança ocupacional e fornecimento de EPIs.

Imagem enviada por moradora mostra fuligem escura acumulada na sola do pé de criança após brincar em varanda residencial no bairro Esplendor. Origem do material não foi confirmada por análise técnica.
Fuligem dentro das casas preocupa moradores
Além da fumaça percebida no entorno, moradores relatam a presença recorrente de resíduos escuros acumulados em áreas internas das residências.
Uma imagem enviada à reportagem mostra a sola do pé de uma criança após brincar na varanda interna da própria casa, localizada nas proximidades da fundição. Segundo a família, o pé teria ficado coberto por uma fuligem escura, com aparência oleosa, que se mistura ao pó do ambiente e apresenta dificuldade para remoção mesmo após lavagem.
De acordo com a moradora, o fenômeno seria mais frequente nos dias em que a emissão de fumaça se intensifica.
A reportagem não realizou análise laboratorial do material nem possui confirmação técnica sobre a origem da substância registrada na imagem, tratando-se de relato da família acompanhado de registro fotográfico.
Especialistas em saúde ambiental apontam que a presença contínua de partículas escuras em superfícies domésticas pode justificar avaliação técnica da qualidade do ar e eventual investigação ambiental pelos órgãos competentes.
Barulho impede conversas dentro de casa
Outro ponto recorrente nas denúncias é o ruído industrial.
Moradores afirmam que o barulho das máquinas seria tão intenso que conversas dentro das residências só seriam possíveis elevando a voz.
“Parece que a máquina está dentro da casa.”
Segundo relatos, equipes de fiscalização já teriam realizado medições sonoras e identificado necessidade de avaliação técnica, mas moradores dizem não ter percebido mudanças permanentes.
Denúncias antigas e sensação de descrédito
Moradores afirmam procurar órgãos públicos desde 2014.
De acordo com depoimentos, denúncias foram levadas ao Ministério Público e a órgãos municipais ao longo dos anos, com fiscalizações pontuais, mas sem solução definitiva.
“Quando vinha fiscalização, passava um tempo sem fumaça. Depois voltava tudo.”
Também há relatos de que resíduos industriais, supostamente óleo queimado, teriam sido descartados em áreas próximas às residências e posteriormente cobertos após reclamações. A informação não foi confirmada oficialmente por órgãos ambientais.

Denúnca feita ao Ministério Público de Iguatu

Denúncia feita em janeiro de 2026 à Ouvidoria Municipal
Nova denúncia em 2026 e renovação do alvará
Em janeiro de 2026, moradores afirmam ter realizado nova denúncia formal, desta vez registrada na Ouvidoria do Município de Iguatu.
Segundo os relatos, a comunidade esperava uma ação mais rigorosa de fiscalização ambiental e avaliação técnica das condições de funcionamento da atividade industrial.
No entanto, de acordo com moradores, nenhuma solução prática teria sido apresentada após a manifestação.
Em vez disso, a Prefeitura teria promovido a renovação do alvará de funcionamento da fundição, decisão que passou a gerar questionamentos entre os residentes da área.
Fundição funcionando à noite
Promessa de mudança nunca confirmada
Moradores afirmam que, ao longo das discussões, teriam sido informados informalmente de que a fundição seria transferida para outra área da cidade, possivelmente nas proximidades da saída para o município de Quixelô.
Até o momento, porém, não há anúncio oficial, cronograma público ou documentação que confirme a relocação da atividade industrial.
Segundo apuração feita por moradores, a situação seguiria em direção oposta: em vez de transferência, haveria movimentações para aquisição de um terreno vizinho ao atual empreendimento.
Caso confirmada, a iniciativa indicaria possível ampliação da atividade industrial no mesmo bairro residencial.
Escola em construção amplia preocupação
A preocupação aumentou após o início da construção de uma nova escola pública de tempo integral nas proximidades da fundição, obra financiada com recursos do governo federal.
Moradores temem que crianças passem a frequentar diariamente uma área que, segundo eles, já apresenta impactos ambientais percebidos pela comunidade.
“Vão construir uma escola aqui do lado e a fumaça vai pra cima dela”, relatou uma moradora.
Renovação do alvará levanta questionamentos
A renovação do alvará pressupõe análise técnica da compatibilidade da atividade com o zoneamento urbano e avaliação ambiental do empreendimento — pontos que passaram a ser questionados pelos moradores.
A fiscalização ambiental estadual envolve a Superintendência Estadual do Meio Ambiente, responsável pelo controle de atividades potencialmente poluidoras.
Reportagem buscou posicionamento oficial
A reportagem enviou e-mail e mensagens oficiais à empresa Corban, responsável pela fundição, e também à Prefeitura de Iguatu, encaminhando questionamentos sobre:
- controle de emissões atmosféricas;
- medições de qualidade do ar;
- níveis de ruído industrial;
- critérios técnicos da renovação do alvará;
- condições de segurança dos trabalhadores;
- existência de plano de relocação.
Até o fechamento desta matéria, não houve resposta oficial da empresa nem da administração municipal. O espaço permanece aberto para manifestação.

Mensagem enviada a Corban

Mensagem enviada a Ouvidoria da Prefeitura
Moradores relatam desgaste após anos de reclamações – Depoimentos de moradores
Após mais de uma década de denúncias, parte da comunidade afirma ter perdido a expectativa de solução.
“A gente cansa de pedir ajuda. Parece que ninguém escuta.”
Segundo uma moradora, em nova ida ao Ministério Público foi informado que a denúncia seria anexada a procedimentos já existentes.
IMPORTANTE: Os moradores aqui listados autorizaram seus depoimentos sem a alteração de voz e na forma como estão, sem edição ou corte.
O que ainda precisa ser esclarecido
Permanecem sem resposta pública:
- quais medidas foram adotadas após denúncias feitas em 2025 e 2026;
- quais laudos sustentaram a renovação do alvará;
- se há monitoramento contínuo da qualidade do ar;
- se existe plano oficial de transferência ou expansão da fundição;
- quais providências sanitárias e ambientais serão tomadas diante dos relatos da população.
Enquanto aguardam respostas, famílias do Esplendor seguem convivendo diariamente com fumaça, ruído constante e incertezas sobre possíveis impactos à saúde.
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