“Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Dê lhes grandeza e um pouco de coragem”

(Blues da Piedade, Roberto Frejat).

Em meio a vastidão de coisas horripilantes que meus sentidos a curto prazo não conseguem explicar, eu contemplo o fim e o silêncio triste da rua onde moro em uma madrugada qualquer… em qualquer dia da semana…

Existe uma área verde em frente à casa onde moro, uma lagoa, um esgoto a céu aberto, um calçamento a ser terminado, pois a administração pública municipal após o fim das últimas eleições desta urbe abandonou; e um cavalo pastando em meio a escuridão desta área verde… Ouço o coaxar dos sapos, há dois pássaros conhecidos popularmente como carão, o vizinho me disse que eles têm hábitos noturnos, e um cheiro de alguma planta que exala como perfume suave….

Estou na calçada da casa onde moro… A rua é meio escura, fumo um cigarro, contemplo os desenhos que a fumaça faz sob a claridade da luz de um poste. Estou embriagado, pensamentos em questões políticas, no passado sentimental e em coisas do dia a dia… uma confusão mental de cores, desejos, raivas e lembranças… estas muitas….  Passa por esta rua onde moro só quem realmente mora aqui: entregadores, carro da limpeza pública e na eleição os políticos… É uma das partes da cidade como outras tantas esquecidas… Existe apenas na vida de quem mora aqui ou vem aqui entregar alguma coisa…

O silêncio triste desta rua às vezes grita… grita no peito a voz do silêncio que me faz ouvir os meus demônios internos… O país é rico e produz muitos alimentos…, mas milhões passam fome… O absurdo de qualquer preconceito é relativizado por legalistas pragmáticos e outros tantos religiosos que fingem não ver o absurdo do que ocorre neste país. São cúmplices ou alienados? Ou ambas as coisas? O silêncio triste da rua onde moro impera… mesmo em meio ao coaxar dos sapos, o canto dos pássaros noturnos e do andar pelo mato do cavalo que pasta na beira da lagoa… Mesmo com tudo isso o silêncio impera… é como se todas essas outras coisas colaborarem para o silêncio mesmo não fazendo silêncio… O silêncio lá está…

O silêncio das consciências do meu país pode ser igual ao silêncio triste da rua onde moro… Não há silêncio, mas é como se houvesse… Não há consciência, humanidade, respeito, dignidade, direitos, mas é como se houvesse… Na boca dos cúmplices ou sequestrados ideologicamente está tudo na mais perfeita normalidade…. como o silêncio triste da rua onde moro… Sapos coaxam, pássaros noturnos capturam, cavalo pasta e às vezes alguém passa pela rua para ir para casa ou entregar alguma coisa… O silêncio triste de minha rua é algo que não sei explicar, assim como algumas coisas que acontecem neste país…

Por Américo Neto

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