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ARTIGO – Enéas, Trump e o fim da paz armada

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Um dos personagens mais folclóricos da política brasileira foi Enéas Carneiro. Candidato à Presidência nas décadas de 1990 e 2000, eternizou-se pelo bordão “Meu nome é Enéas” e por uma promessa que, na época, soava delirante: construir uma bomba atômica se eleito. Riram dele. Virou motivo de chacota, paródia. Hoje, Enéas seria um prato cheio para memes.

Ocorre que Enéas estava longe de ser um bufão. Apesar de suas excentricidades e excessos — discurso nacionalista em tom marcial ao som da Quinta Sinfonia de Beethoven como trilha sonora; posições rotuladas como ultraconservadoras e uma estética caricatural —, tratava-se de um político sério, com uma visão estratégica que incluía industrialização pesada, transição energética, soberania tecnológica e projeção geopolítica do Brasil. Quando questionado sobre a bomba atômica, sua resposta era simples e direta: “Não para jogar nos outros, mas para que não joguem em nós”.

À luz dos acontecimentos recentes, fica evidente que Enéas estava, na verdade, à frente do seu tempo. A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos revela que o futuro que Enéas enxergava chegou.

Maduro cumpriu seu destino. Depois de anos de ditadura, repressão e violência contra o próprio povo, seu fim não causa espanto moral. Talvez merecesse até mais. Mas o ponto central não é Maduro. O sequestro do chefe de um Estado soberano por uma superpotência não é apenas mais uma arbitrariedade de Donald Trump. Trata-se de um marco histórico: o colapso definitivo da ordem jurídica internacional forjada no pós-guerra.

O fim da ordem internacional

Criada em 1945, no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) nasceu com um objetivo bastante claro: preservar a paz e a segurança internacionais, conter o ímpeto das grandes potências e fomentar a cooperação entre os Estados na solução de problemas e conflitos globais, no desenvolvimento de relações amistosas e na promoção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais.

Durante décadas, esse arranjo sustentou o que se convencionou chamar de “paz armada”: não há conflito aberto, mas há arsenais nucleares em expansão; não há guerra declarada, mas todos se preparam para ela. Em suma: a paz armada não é paz, é adiamento do conflito. É paz só no nome. No fundo, é tensão permanente, é nervo à flor da pele.

A história recente é didática e cruel: nada mais será como antes. A invasão da Ucrânia pela Rússia, a prisão de Maduro pelos EUA, as investidas da China contra Taiwan, tudo aponta para a mesma conclusão incômoda: nenhum organismo internacional é capaz de conter o ímpeto dessas superpotências.

A nova regra do jogo é simples, brutal e antiga: poder bélico. E nada impõe mais respeito nesse tabuleiro do que aquilo que Enéas defendia: armas nucleares. Não como instrumento de ataque, mas como garantia de sobrevivência. Sem isso, não há soberania real. Há vulnerabilidade, vassalagem, obediência forçada.

A lei do mais forte

Esse novo cenário foi explicitado sem rodeios por Trump — uma espécie de Nero contemporâneo. Em entrevista, ao ser questionado sobre a existência de limites ao seu poder no plano global, respondeu que o único limite ao seu poder é sua própria moral e que não precisa do direito internacional. A mensagem é cristalina: tratados, instituições e normas só valem enquanto não atrapalham a vontade do mais forte. Traduzindo: a lei acaba onde começa a força.

Você já percebeu o padrão: país com arma nuclear não é invadido. Pode ser pressionado, chantageado, sancionado, ameaçado — mas não é esmagado. Superioridade militar não vira guerra quando o custo é o fim do mundo. Isso se chama poder de dissuasão.

Com exceção dos que optam por não confrontar o “dono do continente” — como a Argentina de Milei — os países da América Latina e Central, o velho “quintal” dos EUA no projeto MAGA, agora carregam um grande alvo nas costas. As ameaças de Trump à Colômbia não deixam dúvidas.

Na nova (des)ordem mundial, se você não é uma superpotência militar, você não é plenamente um Estado. Você é uma presa em potencial, vigiada, cercada, abatida quando convém. A lógica é simples: se você tem uma arma e eu também, então podemos conversar sobre leis, direitos e justiça. Mas quando apenas um lado está armado, esse equilíbrio desaparece. Não há lei, não há justiça, não há direito — há apenas força, poder, imposição e dominação. Nesse cenário, a força da lei dá lugar à lei do mais forte.

Enéas e o diagnóstico do tempo

Foi isso que Enéas tentou dizer quando virou piada nacional ao falar em bomba atômica. Não era delírio, era diagnóstico. O tempo passou, e a loucura se fez lucidez.

Ao que tudo indica, chegamos, enfim, na era da Grande Política, cuja lei fundamental recupera um velho provérbio, hoje mais atual do que nunca:

Si vis pacem, para bellum — “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”.


Pierre Wirom
Advogado e Professor

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