Artigo

Entre Olhares: “Eu sou a mosca…”(Raul Seixas)

Published

on

Fiquei com este refrão me atormentando o juízo quando tomei conhecimento de um estudo de quase 30 anos de duração, feito por entomologistas alemães, que constatou 76% de perda da biomassa de insetos nas Áreas de Proteção Ambiental daquele país. Os índices chegaram ao alarmante patamar de 82% no período do verão. Ao que tudo indica, devido à existência de lavouras nos arredores dessas APA’s.

Considero importante revelar algumas informações a respeito destes invertebrados: de todas as espécies animais conhecidas no planeta, eles representam mais da metade; são responsáveis por 80% da polinização das plantas silvestres; polinizam 84% das culturas agrícolas; servem de comida para 60% dos pássaros, além de pequenos répteis, mamíferos,anfíbios e peixes. Representantes do Departamento de Zoologia da UFRGS afirmam que, à nível mundial, a perda é da ordem dos 45%.

Acredita-se que nos últimos 30 anos o sumiço de borboletas na Europa é da ordem dos 50%, além de abelhas e mariposas. Estudo realizado por cientistas americanos em 20 países constatou que os polinizadores silvestres são mais eficientes do que as abelhas domésticas. Contudo, eles estão cada vez mais escassos devido à perda de habitat ocasionada pelo aquecimento global. Consequentemente, temos aí uma grave ameaça à produção e à produtividade agrícolas mundiais.

Na Catalunha (Espanha), recente palco de grandes manifestações populares pró independência; mais uma vez a “massa popular” servindo de “massa de manobra” na defesa dos interesses da elite dominante na disputa de Poder, estudo realizado por mais de 20 anos verificou que 66 espécies de borboletas já perderam ¾ de sua população, sem que nenhum político e/ou cidadão/cidadã de bem tenha levantado a sua voz em defesa da existência desses indefesos seres.

No Brasil, onde os investimentos em Educação, Ciência e Tecnologia estão congelados por 20 anos; onde as instituições de ensino e pesquisa (mesmo antes desse congelamento) se encontram batendo o pirex com escassas moedinhas; onde os maiores talentos intelectuais estão sendo obrigados a emigrar para instituições de Primeiro Mundo; onde as principais instituições de Ensino, Pesquisa e Extensão se encontram agonizando por falta de verbas, logicamente que os estudos são insuficientes e se restringem a apenas os arredores dessas poucas instituições.

Em 2012 foi encerrado um estudo com duração de mais de 40 anos que estimou uma queda de 58% na abundância global de invertebrados silvestres. As principais causas do desaparecimento desses insetos estão relacionadas à transformação e à destruição dos seus habitats. Segundo organismo da ONU para a Alimentação e a Agricultura – FAO – a maior preocupação é com as abelhas, pois elas são responsáveis pela polinização de 73% das plantas destinadas à alimentação humana, além de produtoras de mel.

Dados de 2007 registraram que o valor global do mel atingiu cerca de US$ 1,5 bilhão, enquanto que os serviços de polinização atingiram a cifra de US$ 212 bilhões. Espero que você tenha percebido o quanto é importante e o quanto a nossa Espécie Humana é dependente dessa espécie animal, pois sem os seus serviços, são remotas as nossas possibilidades de sobrevivência. Literalmente dependemos desses pequenos e incômodos voadores para viver, sobreviver e comer.

Desde de 2007 que essa ameaça tem nome: DESORDEM DO COLAPSO DAS COLÔNIAS. No Hemisfério Norte cerca de 30% das colônias de insetos estão desaparecendo todos os anos. No Brasil, para variar, tardiamente, somente em 2011 esse fenômeno começou a ser observado pelos cientistas tupiniquins. No inverno de 2014/2014 a mortalidade foi de 5% na Espanha; 14% na França e 15% na Suécia. Principais causas: Uso de herbicidas e pesticidas.

Sou professor de Extensão Rural dos Cursos Técnicos e Tecnológico do IFCE “campus” Iguatu há mais de 20 anos. Neste ínterim tenho realizado com meus alunos diagnósticos comunitários rurais em diversas localidades e municipalidades da Região Centro Sul do Estado do Ceará. É uníssona a resposta dos rurícolas: “Não recebemos assistência técnica”. Os índices sempre ultrapassam a casa dos 70%.

Considerando todo o exposto acima, é preocupante a situação, haja visto que nossos produtores e trabalhadores rurais além de avançada idade, são detentores (quando são) de baixíssimos índices de escolaridade. Por tanto, produção e produtividade agrícolas já não se restringem mais somente à questão da preservação, conservação e fertilidade do solo; manejo da irrigação. Precisamos agora estar atentos à população de insetos da nossa região.

¹Publicado na REVISTA PLANETA, dez 2017, Ano 45, Edição 537.

EM ALTA

Sair da versão mobile