Brasil
Augusto Cury e o risco de transformar a política em uma grande sessão de coaching
Candidato fala em escuta, cura e equilíbrio, mas apresenta propostas que exigem respostas objetivas sobre anistia, semipresidencialismo, impostos e gestão pública
Augusto Cury entrou na disputa presidencial de 2026 apresentando-se como uma alternativa à polarização. Escritor e psiquiatra, o candidato do Avante construiu sua campanha em torno de conceitos como inteligência emocional, escuta, equilíbrio e superação dos conflitos.
O problema começa quando o discurso terapêutico precisa se transformar em projeto de governo.
Cury defende a ideia de um Estado mais eficiente, uma economia mais liberal e, ao mesmo tempo, uma agenda social. Também propõe mudanças profundas no funcionamento do sistema político, incluindo o semipresidencialismo e o fim da reeleição para cargos do Executivo.
Até aí, trata-se de uma plataforma política legítima. O problema é que algumas das propostas mais importantes da candidatura permanecem cercadas de perguntas que precisam ser respondidas com números, mecanismos e consequências práticas — e não com conceitos de comportamento, emoção ou motivação.
Anistia para os condenados pelo 8 de Janeiro
Cury ainda defende a anistia para os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro.
É uma posição política que pode ser defendida dentro do debate democrático. Mas precisa ser apresentada com clareza.
Quem seria anistiado? Somente quem participou dos atos de depredação? Também aqueles condenados por crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional? Haveria distinção entre quem depredou patrimônio e quem participou da articulação política para subverter o resultado eleitoral?
Uma proposta de anistia não pode ser tratada apenas como gesto de pacificação nacional. É necessário dizer qual seria o alcance da medida e quais crimes seriam abrangidos.
Tarcísio como primeiro-ministro
A proposta de semipresidencialismo também merece uma discussão muito mais séria.
Cury defende um sistema no qual o presidente dividiria o poder com um primeiro-ministro. E, em sua formulação política, aparece a possibilidade de Tarcísio de Freitas ocupar essa função.
Aqui surge uma pergunta elementar: se o candidato acredita que o presidencialismo brasileiro precisa ser substituído, por que a solução passa pela escolha antecipada de uma personalidade política específica para comandar o governo?
O semipresidencialismo é uma discussão institucional legítima. Transformá-lo em instrumento para acomodar determinado nome é outra coisa.
Antes de escolher quem seria primeiro-ministro, seria necessário explicar como funcionaria a relação entre presidente, primeiro-ministro e Congresso, quem teria poder para demitir o governo, como seriam resolvidas crises de maioria e qual seria a responsabilidade política de cada autoridade.
Cortar impostos: quanto e como substituir a receita?
Cury também fala em redução de impostos.
Novamente, a proposta é politicamente atraente. O problema é a conta.
Qual imposto será reduzido? Quanto o governo deixará de arrecadar? Qual será o impacto anual sobre a União, estados e municípios? Quais despesas serão cortadas? Quais benefícios ou subsídios serão revistos? Haverá aumento de outros tributos?
Não existe redução de receita pública sem consequência fiscal.
Se a arrecadação cair, existem basicamente três caminhos: reduzir despesas, aumentar outras receitas ou aceitar maior déficit e endividamento.
O eleitor tem direito de saber qual desses caminhos o candidato pretende seguir.
O Estado como escola de coach
É justamente nesse ponto que o projeto de Cury corre o risco de transformar uma discussão complexa de administração pública em uma espécie de grande programa nacional de desenvolvimento pessoal.
Gestão emocional, inteligência multifocal, empreendedorismo, clubes de empreendedorismo e educação emocional aparecem como elementos importantes de seu projeto.
Essas iniciativas podem ter espaço em políticas públicas. Mas não substituem políticas econômicas, planejamento fiscal, segurança pública, infraestrutura, saúde, educação básica, saneamento ou reforma administrativa.
Governar um país de mais de 200 milhões de pessoas não é conduzir uma sessão coletiva de coaching.
Um Estado eficiente precisa de metas, orçamento, indicadores, avaliação de resultados e responsabilização dos gestores.
“Sem escuta não há cura”
O slogan “sem escuta não há cura” é provavelmente uma das frases mais marcantes da candidatura.
Mas uma campanha presidencial não pode apenas escutar.
Precisa decidir.
E toda decisão pública produz ganhadores, perdedores, custos e consequências.
O eleitor pode ouvir uma proposta de redução de impostos e gostar dela. Mas precisa saber quem pagará a conta.
Pode ouvir uma proposta de anistia e considerá-la necessária. Mas precisa saber quem será beneficiado.
Pode ouvir a defesa do semipresidencialismo e concordar que o sistema precisa mudar. Mas precisa entender como o novo sistema funcionará.
Pode gostar da ideia de transformar a educação emocional em política pública. Mas precisa saber quanto custará, quem será responsável e como será medida sua eficácia.
O risco da política transformada em terapia
Há uma diferença importante entre utilizar conhecimentos da psicologia para melhorar a política e transformar conceitos psicológicos em uma espécie de explicação geral para os problemas nacionais.
O Brasil não está diante apenas de uma crise emocional.
Há problemas fiscais, desigualdade, criminalidade organizada, baixa produtividade, deficiência educacional, infraestrutura precária, desafios demográficos e uma máquina pública que precisa ser permanentemente avaliada.
Esses problemas não desaparecem com inteligência emocional.
Precisam de política pública.
O discurso de Cury tem uma qualidade evidente: tenta escapar da guerra permanente entre lulismo e bolsonarismo e oferece ao eleitor uma narrativa de equilíbrio.
Mas existe um risco nessa estratégia.
Quando a política promete “cura”, pode acabar tratando divergência como doença e discordância como falta de equilíbrio.
E isso é especialmente perigoso em uma democracia.
O eleitor não precisa de um terapeuta ocupando o Palácio do Planalto. Precisa de um presidente capaz de apresentar um diagnóstico, estabelecer prioridades, mostrar a conta e assumir a responsabilidade pelas escolhas.
Cury pode perfeitamente defender uma política menos agressiva, menos polarizada e mais racional.
Mas, para isso, terá de fazer justamente aquilo que sua própria campanha promete: escutar as perguntas difíceis e respondê-las com objetividade.
Porque “sem escuta não há cura” pode ser um bom lema.
Mas sem números, sem projeto e sem explicar como as propostas serão executadas, também não há governo.
-
Brasil2 dias atrásLula enfrenta temas sensíveis em entrevista ao Jornal Nacional e transforma sabatina em defesa da reeleição
-
Brasil3 dias atrásCiro e Elmano chegam ao debate do Cariri em disputa por narrativas sobre segurança, Lula e Bolsonaro
-
Noticias2 dias atrásCaminhão derruba arco histórico de acesso ao Açude Cedro, em Quixadá
-
Iguatu3 dias atrásIguatu recebe secretário da SDA para assinatura de ordens de serviço de sistemas de abastecimento de água
-
Brasil3 dias atrásEleições de 2026 ampliam presença de candidatos negros na disputa eleitoral
-
Ceará3 dias atrásReforma Casa Brasil movimenta mais de R$ 100 milhões no Ceará, mas adesão ainda é baixa
-
Noticias2 dias atrásEclipse parcial da Lua poderá ser observado em todo o Brasil na madrugada desta sexta-feira
-
Noticias2 dias atrásAtriz de “As Branquelas” revela diagnóstico de raro tumor cerebral e passa por duas cirurgias
