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Brasil

Nossa Senhora Aparecida vira alvo de uma guerra política nas redes

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Boato sobre retirada do título de Padroeira do Brasil explode nas redes, mobiliza milhões de interações e termina no TSE; episódio revela como a fé passou a ser usada como instrumento de disputa eleitoral

Nossa Senhora Aparecida, símbolo religioso para milhões de brasileiros e Padroeira do Brasil, foi colocada no centro da disputa eleitoral desta semana. O que começou com uma informação falsa sobre uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil transformou-se em uma das maiores ondas de repercussão política nas redes sociais em 2026.

O ponto central precisa ser esclarecido: não existe atualmente uma proposta de Flávio Bolsonaro para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. A origem da narrativa está em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, pastor da Assembleia de Deus. A proposta pretendia alterar a denominação oficial para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e acabou arquivada em 2008.

O assunto voltou a circular depois de uma referência ao projeto durante a programação da GloboNews. A emissora posteriormente reconheceu o erro e pediu desculpas. Flávio Bolsonaro também negou qualquer intenção de retirar o título da santa e afirmou respeitar as diferentes religiões.

Mas a correção não impediu que o assunto ganhasse proporções gigantescas.

180 mil comentários em apenas 20 horas

Levantamento da Vox Radar, encomendado pela CNN e divulgado pelo UOL, contabilizou 180.857 comentários sobre o episódio em apenas 20 horas, produzidos por 139.677 perfis. As publicações receberam aproximadamente 902 mil curtidas.

O pico aconteceu na sexta-feira (25), quando o tema chegou a registrar 33.643 comentários em uma única hora.

O levantamento mostra também uma característica importante da discussão: a polêmica se dividiu entre dois assuntos praticamente paralelos. De um lado, a discussão sobre a suposta retirada do título de Nossa Senhora Aparecida. De outro, a acusação de que a história seria uma “fake news do PT”.

Segundo a Vox Radar, entre os comentários que tomavam posição sobre o boato, 36% desmentiam ou demonstravam não acreditar na informação, enquanto 26% acreditavam nela ou a reproduziam. Entre usuários identificados como católicos, o desmentido teve ainda menos alcance: 47% demonstravam acreditar no boato e 14% o desmentiam.

O dado mostra o tamanho do problema: uma informação falsa pode continuar produzindo efeitos políticos mesmo depois de ser corrigida.

O caso chegou ao TSE

A guerra digital acabou chegando à Justiça Eleitoral.

O vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro André Mendonça, determinou a remoção de publicações relacionadas ao episódio. A decisão alcançou centenas de conteúdos em diferentes plataformas.

Segundo informações divulgadas pelo UOL, a decisão mencionou 469 publicações de 315 contas, distribuídas entre X, TikTok, Instagram, Facebook e YouTube. A defesa de Flávio Bolsonaro havia identificado um universo ainda maior, com 2.086 publicações feitas por 1.674 contas.

Entre os conteúdos atingidos estavam publicações de figuras públicas como a deputada Erika Hilton e o teólogo Leonardo Boff.

A decisão provocou reação dos autores de algumas das publicações, que questionaram os limites da remoção de conteúdo político durante uma eleição. A defesa de Antonio Tabet, por exemplo, anunciou que pretende recorrer.

Quando a religião entra na disputa eleitoral

O episódio vai além da existência ou não de um projeto de lei.

Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na cultura brasileira. O ataque, a defesa ou a simples utilização da imagem da Padroeira do Brasil carregam uma enorme força simbólica, especialmente entre os católicos.

É justamente por isso que a religião se tornou um dos terrenos mais sensíveis da eleição de 2026.

A CNBB e diversos bispos vêm defendendo a participação consciente dos católicos no processo eleitoral, mas também têm advertido contra a transformação da religião em instrumento de propaganda partidária. O presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, afirmou que a Igreja não faz opção por partidos ou candidatos e criticou a utilização da religião para autopromoção política.

O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostra como esse limite ficou ainda mais difícil de preservar.

Uma informação falsa sobre a Padroeira do Brasil foi capaz de provocar centenas de milhares de manifestações, atingir diretamente o debate eleitoral, envolver candidatos, religiosos, artistas, políticos e terminar em uma decisão do TSE.

A lição de Aparecida

Há uma questão que deveria estar acima da disputa entre esquerda e direita: a fé não deveria ser transformada em arma eleitoral.

O caso também deixa uma segunda lição. Em uma eleição disputada nas redes sociais, a velocidade de uma acusação pode ser muito maior que a velocidade de sua correção.

O projeto existiu. Mas foi apresentado em 2007, arquivado em 2008 e não corresponde a uma proposta atual de Flávio Bolsonaro para retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil.

Mesmo assim, em apenas 20 horas, o assunto gerou mais de 180 mil comentários.

Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha eleitoral não por causa de uma nova proposta para retirar seu título, mas porque a imagem da Padroeira se tornou o centro de uma disputa política sobre fé, identidade, desinformação e voto.

E talvez essa seja a parte mais preocupante da história: quando a fé vira instrumento de guerra política, quem perde não é apenas um candidato ou outro. Perde a própria capacidade de distinguir aquilo em que se acredita daquilo que efetivamente aconteceu.

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