A Rádio Mais FM foi em busca dos tocadores de sanfona na cidade de Iguatu e trouxe uma festa de tradição e cultura popular. Foto: Michel Prudêncio
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A tradição da sanfona na terra do baião no mês de São João
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Nas ruas, calçadas e terreiros da cidade de Iguatu principal cidade da região centro sul no interior do Ceará ainda se pode escutar o som das chinelas no salão, acompanhados da batida da zabumba, do triângulo e os melodiosos acordes da sanfona. No ano em que o Baião de Luiz Gonzaga e do iguatuense Humberto Teixeira completa 70 anos de música, histórias e estradas a reportagem da Rádio Mais FM preparou neste mês de junho uma sequência de reportagens especiais alusivas as tradições sertanejas nas noites de São João, memórias que marcaram vidas, casamentos, manifestações de fé ao som da trilha sonora da música que celebra a colheita, os santos e o calendário de festejos que naturalmente segue no imaginário popular do povo nordestino.

As escolas da cidade desenvolvem suas remontagens de danças tradicionais, a culinária varia de diversas maneiras à partir da colheita do milho, no som a tecnologia muda a cada ano o que antes era animado por grupos tradicionais musicais conhecidos por ‘Bandas Pé de Serra’ hoje vai sendo substituídos por pendrives nos paredões de som, as fogueiras podem ser contadas nos dedos diante de um ‘estirão’ de casas, as bandeirinhas de papel de seda quase não tem mais, ao longo dos tempos as tradições vão dando lugar a outras práticas culturais ou até mesmo por quase nada. Longe do cenário religioso as tradições do mês de junho se mistura com a relação do agricultor com a terra e seu período de colheita que sempre termina em festa, os casamentos, aniversários ou até mesmo simples confraternizações familiares levaram durante anos a prática de acender a fogueira, pendurar bandeirinhas e chamar o melhor ‘tocador’ da região para animar os festejos, talvez as novas gerações não compreendam o verdadeiro sentido da celebração.

Iguatu conhecida como a cidade que contém uma  grande diversidade de músicos reconhecidos até mesmo internacionalmente aos poucos também vai fechando os circuitos culturais para aqueles que buscam ainda manter  viva a chama da música de tradição tendo como maior referência o Baião um dos maiores movimentos culturais registrados na história do povo brasileiro.

Izaura Rodrigues animou os forrós na cidade de Iguatu no Clube dos Carreteiros. Foto: Michel Prudêncio
Izaura Rodrigues animou os forrós na cidade de Iguatu no Clube dos Carreteiros.
Foto: Michel Prudêncio

Izaura Rodrigues é Sanfoneira desde sua infância, aluna do mestre Vitor começou a animar os forrós e bailes aos 15 anos de idade, por ser mulher e menor de idade Izaura tocava sempre acompanhada da mãe e na porta dos clubes que ela tocava dois vigias para avisar a possível chegada da patrulha policial local, os festejos diversos das grandes fazendas da região ao menos uma vez ouviram o som da sanfona de Izaura, criou seu filho e neto puxando o fole e trabalhando como atendente de médico em postos de saúde, ‘Se fosse preciso ainda teria força pra animar um forró a noite toda’, fala Izaura posicionando os dedos em sua sanfona de 80 baixos, ao lado do Mestre Apolo no cavaco, Eulânio na Zabumba e Azulão no triângulo o grupo conhecido como Dona Izaura e seu conjunto ganhou a estrada sempre se referenciando nas musicas de tradição de sua terra.

Geová Fernandes é um dos mais tradicionais sanfoneiros de Iguatu. Foto: Reprodução.
Geová Fernandes é um dos mais tradicionais sanfoneiros de Iguatu.
Foto: Reprodução.

Na parede da sala da casa de Geová Fernandes pode se observar quadros de fotografias de tempos áureos, um certificado da Ordem dos Músicos do Brasil que atesta como ‘acordeonista’ um dos Mestres da sanfona em Iguatu, deficiente visual Geová vivenciou o processo de transição do forró quando as letras das músicas passaram a perder o sentido e a sanfona foi perdendo seu espaço para os conjuntos de instrumentos de metais e bateria. Para Geová o forró de tradição a cada ano vai perdendo mais espaço, a agenda de shows vai diminuindo à medida que as grandes Bandas que fazem parte de um conjunto maior de empresas e produtoras vão tomando de conta dos festejos mais tradicionais do Nordeste. Geová ainda reside na Rua Sete de Setembro e aos domingos especiais anima o baile de São João da associação dos idosos local.

O Jovem Rafael Santo mantém viva a tradição da Sanfona em Iguatu. Foto: Reprodução.
O Jovem Rafael Santo mantém viva a tradição da Sanfona em Iguatu.
Foto: Reprodução.

 

 

Ao chegar com sua família na cidade de Iguatu, mais precisamento no Sítio Barrocas o Senhor Edimilson Cosmo resolveu reunir a família e formar um projeto que tiraria seu sustento de vida a Banda Amor de Menina ainda busca referências no forró de tradição, porém o mercado instiga o grupo ‘evoluir’ e tocar os forrós atuais, na sanfona seu filho Rafael Santos é quem dá as coordenadas pro restante do grupo, puxando o fole desde os 06 anos de idade Rafael está compondo suas próprias canções e espera poder alçar vôos maiores na sua carreira de músico.

As Tradições de Junho e o São João de Antigamente

Nos dias de santos durante toda a tarde os homens da casa começam a recolher as madeiras sem utilidade espalhadas no quintal, as crianças recortam no tradicional papel de seda as bandeirinhas pregadas em barbante que irão colorir o céu da rua, na cozinha da casa as mulheres se juntam para descascar o milho, dali saem o Cuscuz, bolo de milho, pamonha, canjica e o mungunzá, no fundo do pote após vários dias o ‘Aluá’ já está pronto fabricado artesanalmente feito de casca de abacaxi, para dar uma animada na noite o ‘Quentão’ e o licor. Ao fim da tarde os tocadores começam a ajustar os instrumentos, o terreiro é banhado para não fazer poeira, os vestidos feitos pelas melhores costureiras de pano de chita e os chapéus de palha e de massa acompanhado das camisas de botão xadrez. A noite vai chegando e as luzes das fogueiras começam a iluminar a noite, ao longe pode se ouvir o estampido dos bacamarteiros, das bombinhas de são joão e no céu os balões que sobem iluminando os rostos admirados que buscam na vista entender o céu de Junho no sertão.

Na beira da fogueira os antigos amigos renovam seus pactos de fraternidade se fazendo compadres de fogueiras, afilhados e padrinhos, os mais tradicionais se arriscam olhando a bacia de alumínio cheia d’água na beira da fogueira aquele que não ver seu rosto certamente não estará vivo no próximo São João.

O Sertão Nordestino que se desenvolveu na fé, de um povo lavrador, que busca a solução da chuva nas preces a São José e São Pedro guardião das chaves do céu, as moças que esperam em Santo Antônio um casamento de fartura e alegrias, os meses de junho não são mais como os mesmo a meninada quase não solta mais pipa/raia ou joga bila e pião, esperamos os novos valores culturais se reinventarem para tentar classificar o São João do Nordeste como Folclore de uns tempos de minha avó ou Cultura Popular que ainda se mantém viva.

Michel Prudêncio é Músico, Produtor Cultural e Repórter da Rádio Mais FM.