Felipe Perrone já foi vice-campeão mundial de polo aquático. Disputou semifinal olímpica. Conquistou o maior título de clubes do planeta, a Liga dos Campeões. Duas vezes. Tudo isso como jogador da Espanha. A partir desta terça-feira, o Brasil passará a conhecer o jogador como um dos seus.

 

Nascido no Rio de Janeiro, Perrone é a grande atração da seleção brasileira que disputa os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá. A estreia está marcada para terça, às 19h (de Brasília), contra os donos da casa do Canadá. “O Pan é o principal evento do ano para o Brasil. Não ganhamos a medalha de ouro desde 1963, quando o Pan foi em São Paulo. E chegou a hora disso mudar”, diz o jogador.

Nunca o Brasil chegou a um evento tão forte no polo aquático. E Perrone, eleito o melhor jogador da Liga dos Campeões deste ano, é o responsável por isso. Em 2013, após disputar o Mundial como capitão da Espanha, ele decidiu trocar de nacionalidade. Saia a Espanha, país que defendeu desde 2004, entrou o Brasil.

“Quando aceitei defender a Espanha, eu não sentia que a seleção brasileira representava o Brasil no polo aquático. Nunca vi um projeto sólido para o esporte. Eram jogadores tentando fazer o impossível, sem nenhum apoio nenhum. Então, quando veio o convite para atuar pela Espanha, não tive dúvidas. Eu já jogava no país e existia um projeto para aquele time. Estávamos ocupando o lugar de um time que foi campeão olímpico e existia um plano para atingirmos os objetivos. Hoje, vejo isso no Brasil, também”, analisa.

Essa mudança tem nome e sobrenome: Ratko Rudic. Considerado o melhor técnico do mundo, o croata chegou no ano passado ao Brasil e iniciou uma revolução. Os resultados começaram a aparecer há duas semanas, na final da Liga Mundial da modalidade, quando o time de Rudic venceu a Croácia, atual campeã olímpica, os EUA, o principal time do continente, e conquistou um inédito terceiro lugar.

Perrone é a estrela dessa revolução, mas não o único que veio de fora para mudar o polo aquático nacional. O espanhol Adria Delgado e o italiano Paulo Salemi adotaram a pátria dos pais, brasileiros. O cubano Ives Gonzalez aceitou defender a nação de sua mulher. Só dois deles, o croata Josip Vrilic e o sérvio Slobodan Soro, não tinham ligação com o Brasil antes da naturalização – ambos são jogadores Fluminense.

“Tem gente que reclama dessas naturalizações. O ´processo de criticar é normal. Eu respeito as opiniões. Mas o Adria e o Paulo são brasileiros por direito. Têm pais brasileiros, já eram brasileiros, só fizeram a opção por qual seleção queriam defender. E temos de lembrar que somos uma pátria de imigrantes, um país que aceita as pessoas. O caso do Josip e do Soro é mais discutível, mas o Brasil não montou um projeto de longo prazo. E, a curto prazo, trazer os dois é a solução que existe”, explica. Segundo Perrone, a simples presença dos jogadores no país aumenta o nível da seleção. “Só com os treinamentos você está ajudando o polo aquático brasileiro a crescer. O Josip e o Soro estão entre os melhores do mundo e treinar com eles faz com que os outros jogadores se esforcem ainda mais”.

Nem todo mundo, porém, está aceitando bem o processo. Na Liga Mundial, Soro foi impedido de defender o Brasil, já que ainda cumpre a quarentena esportiva exigida pela Fina (Federação Internacional de Esportes Aquáticos) para a mudança de nacionalidade. No Pan, Cuba tentou protestar contra a inscrição de Gonzalez – como a documentação do jogador estava em ordem, o protesto nem mesmo chegou a ser oficializado. É bom lembrar que o polo aquático é um dos esportes mais importantes do Pan, já que dá, para o campeão, a vaga olímpica – o Brasil já está garantido, por ser o país sede.

 

Fonte: O Estado CE