Preso ontem, o ex-assessor de gabinete de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), quando o político ainda era deputado estadual pelo RJ, Fabrício Queiroz, estava há mais de um ano em um imóvel pertencente ao advogado da família do agora senador carioca. De acordo com a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o imóvel em Atibaia, município do interior de São Paulo, é do advogado Frederick Wassef, que representa, inclusive, o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Queiroz é investigado por um suposto esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio e por lavagem de dinheiro em transações imobiliárias com valores de compra e venda fraudados. Os mandados de busca e apreensão e de prisão contra o ex-assessor parlamentar foram expedidos pela Justiça do Rio e a prisão foi feita na Operação Anjo, da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo.

Segundo confirmou o delegado da Polícia Civil de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, os caseiros do imóvel afirmaram, durante a operação, que o ex-assessor estaria na residência há cerca de um ano. Em setembro passado – quando, segundo a Polícia, Queiroz já estaria no imóvel do advogado da família Bolsonaro –, Wassef negou saber sobre o paradeiro de Fabrício Queiroz, em entrevista a GloboNews.

Em live, nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro chamou a prisão do policial militar aposentado de “espetaculosa”. “Pareciam que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra”, declarou.

Sobre o fato de Queiroz ter sido preso em um imóvel de Frederick Wassef, em Atibaia, o presidente justificou: “Por que estava naquela área? É perto do hospital onde faz o tratamento de câncer”.

“Não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele”, disse o presidente. “Deixo bem claro, não sou advogado do Queiroz e não estou envolvido neste processo”, continuou.

Quem também se pronunciou sobre o fato foi o senador Flávio Bolsonaro. “Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje (ontem). A verdade prevalecerá! Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro”, escreveu nas redes sociais. “Em 16 anos como deputado no Rio nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!”, completou.

Preso

A prisão de Queiroz foi “tranquila”, segundo o delegado Nico Gonçalves, da Divisão de Capturas da Polícia Civil. O mandado cumprido, segundo a Polícia Civil de São Paulo, foi de prisão preventiva, determinada pela Justiça do Rio. Queiroz teve a prisão lavrada em São Paulo, mas foi transferido para o Rio, onde será ouvido.

Também foi expedido um mandado de prisão contra a ex-mulher do policial aposentado, Márcia Aguiar. O ex-assessor vinha sendo monitorado por investigadores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) da Polícia Civil de São Paulo há meses, segundo policiais civis.

Após sua detenção, ele fez exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal, no centro de São Paulo, e foi levado ao Palácio da Polícia, onde assinou documentos da prisão. Segundo investigadores, o ex-assessor do então deputado não deixava o local há semanas, e encarava a rotina interna como um foragido. Na casa foram encontrados diversos chips e dinheiro em espécie, cerca de mil reais.

Defesa

O PM reformado estava sem advogado desde dezembro do ano passado, quando Paulo Klein deixou sua defesa. Neste mês, contudo, contratou Paulo Emílio Catta Preta, experiente defensor de Brasília que atuou recentemente para Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano do Rio morto em fevereiro. ‘Capitão Adriano’, como era conhecido, também tem ligação com o esquema de “rachadinha”.

Catta Preta esteve no Rio, na cadeia de Benfica, onde Fabrício Queiroz ficará preso. Eles conversaram pessoalmente, pela primeira vez, no início da tarde de ontem. O advogado de defesa considerou a prisão preventiva como medida jurídica “exagerada” e “desnecessária”.

Disse ainda que pedirá que seu cliente seja transferido para uma unidade prisional da Polícia Militar, já que Queiroz é PM reformado. “Me parece excessivo uma pessoa que sempre esteve à disposição, que está em tratamento de saúde, que ofereceu esclarecimentos nos autos, que não apresenta risco nenhum de fuga, ela sofra uma medida tão pesada quanto uma prisão preventiva. Mas, eu só vou poder fazer um juízo definitivo disso no momento em que eu tiver a decisão”, afirmou.

Catta Preta disse que, enquanto não tiver acesso aos autos do processo, Queiroz não prestará depoimento. O advogado descartou, ainda, a realização de delação premiada por parte de cliente. Por último, disse que vai pleitear um habeas corpus.

Anjo

A Operação Anjo, batizada com esse nome por causa do apelido de Wassef, foi coordenada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que indicou o paradeiro de Queiroz aos policiais de São Paulo. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que acompanhou a operação, disse em nota que não foram encontrados documentos que comprovem que o local servia como escritório de advocacia, apesar de placa na fachada do imóvel.

“Os integrantes da Regional de Prerrogativas da OAB Campinas foram acionados ontem (quarta, 17), no fim do dia, sem que nenhum dado da diligência tenha sido revelado, senão, no exato momento do seu início. Chegando ao local, havia placas indicativas de escritório de advocacia, contudo nada de relevante em termos de defesa das prerrogativas profissionais foi encontrado. De qualquer forma, os colaboradores da OAB Campinas permaneceram no local até a finalização dos trabalhos profissionais”, disse.

A nota esclarece também que um grupo da Ordem foi acionado pelo Ministério Público Estadual (Gaeco) para acompanhar o cumprimento de mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia, sem informar o alvo da ação, como determina a lei federal 8.906/94.

Conversa com defesa

O advogado Paulo Emílio Catta Preta, que conversou por 20 minutos com Fabrício Queiroz, disse que ele não explicou o motivo de estar no sítio do advogado Frederick Wassef, em Atibaia. Wassef é advogado do senador Flávio Bolsonaro: “Quando eu perguntei a ele por que estava em São Paulo, ele disse que ia a São Paulo com alguma regularidade para cuidar da saúde. (…) Mas não me disse, exatamente, porque estava na casa do advogado”.

Investigação

A apuração relacionada ao senador Flávio Bolsonaro começou após relatório do antigo Coaf, hoje ligado ao Banco Central, indicar movimentação financeira atípica de Fabrício Queiroz.

Movimentações

Além do volume movimentado, de R$ 1,2 milhão em um ano, chamou a atenção a forma com que as operações se davam: depósitos e saques em dinheiro vivo em datas próximas do pagamento de servidores da Assembleia. Queiroz afirmou que recebia parte dos valores dos salários dos colegas de gabinete e usava para remunerar assessores informais de Flávio, sem conhecimento do então deputado estadual.

Fonte: Diário do Nordeste