Artigo
Entre Olhares: Não deixe o samba morrer
Esta súplica foi feita há mais de 30 anos por um dos maiores ícones do samba no Brasil, a nordestina do Maranhão, mais conhecida como “A Marrom” – Alcione. Bem afeiçoada às religiões de matriz Africana, ao que tudo indica aquela eminente cantora já fazia uma previsão que se consolidaria a partir da Segunda Década deste Século. O Governo carioca se declarou incapaz de ser o copatrocinador do maior evento momino do Planeta Terra.
Oriundo dos bares centrais da cidade do Rio de Janeiro este estilo musical teve a sua primeira versão gravada em 1917 sob o título PELO TELEFONE, obtendo o maior sucesso. Contrariando os dogmas burgueses de sua época, o samba logo teve que subir o morro, “locus” da FAVELA, que aos olhos das instituições, dos governos e do senso popular se tratava do lugar por excelência da desordem, um cancro moral, problema de saúde pública e, agora, um QUILOMBO CULTURAL (ZALUAR, 1998).
Ainda hoje o termo adjetivo “favelado” é tido como jocoso e de inferiorização social a quem é imputado, pois a favela sempre foi estereotipada como o território da pobreza. Ser favelado é antes de qualquer coisa, ser pobre. Contudo, este território estigmatizado compreende cerca de 40% da população do Rio de Janeiro. Através da cultura e, muito especialmente, do samba, as favelas cariocas começam a ser incorporadas à vida social da cidade.
O capita cultural das favelas começa a ser valorizado aproximando os seus moradores aos segmentos intelectuais da classe média, estudantes, artistas, literatos, profissionais da imprensa. Ao final dos Anos 20 do Século passado são iniciados os desfiles carnavalescos. No período pré-republicano as GRANDES SOCIEDADES desfilavam em carros próprios ou alugados, com fantasias exuberantes e manifestações contrárias à escravatura e ao autoritarismo monárquico (ZALUAR, 1998).
Em 1957 o desfile carnavalesco carioca deixa a Praça Onze e vai para a Avenida Rio Branco, onde em 1962 se exige a construção de arquibancadas para a assistência. O chamado PACTO CLIENTELISTA, uma forma de legalização e cooptação do governo em relação à contravenção do Jogo do Bicho e as escolas de samba, foi desfeito em 1960, pois o governo já não dispunha mais de dinheiro. Em 1965 o desfile foi transferido para a Avenida Presidente Vargas.
É a partir de 1959 que tem início o processo de modernização do carnaval carioca. A Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro trouxe à avenida o enredo Jean Baptiste DEBRET, com a ajuda de ex alunos da Escola de Belas Artes e o maciço investimento por parte da contravenção do “bicho”, ascendendo ao Grupo Especial. Receita do sucesso: investimento, organização e modernização.
Hoje o Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro é uma indústria cultural das mais poderosas, movimentando algo em torno dos US$ 50 milhões anuais, gerando mais de 500 mil empregos diretos e indiretos. Em 1972 foi criada a RIOTUR e, em 1984, incomodado com a corrupção o governador Leonel Brizola constrói o SAMBÓDROMO.
Passados tantos anos a mesma corrupção, a privatização da instituição chamada ESTADO, as quadrilhas, os saltimbancos, os propinodutos e a malversação da coisa pública colocam em cheque a continuidade do “maior show da Terra”.
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