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Dragão do Mar recebe Comenda Abdias Nascimento

Francisco José do Nascimento, pescador que lutou contra o tráfico de escravos no Ceará e ficou conhecido como Dragão do Mar, recebeu nesta quinta feira (20/11), in memorian, a Comenda Abdias Nascimento. A honraria foi entregue ao secretário adjunto de Cultura do Ceará, Paulo Victor Gomes Feitosa, em Sessão Especial do Senado. A comenda foi criada para homenagear pessoas que lutam para proteger e valorizar a cultura afro-brasileira.

 

O líder do governo no Congresso, senador José Pimentel (PT/CE), que fez a indicação do Dragão do Mar, participou da cerimônia. Pimentel destacou a importância do pescador na luta abolicionista no Ceará e lembrou que, em 1881, Dragão do Mar tomou a importante decisão de não permitir mais o embarque de negros escravos nos portos cearenses. “Ele decidiu impedir o tráfico negreiro, ao lado de um conjunto de intelectuais, de pessoas do povo que já trabalhavam essa agenda desde a metade do Século XIX. Esse processo permitiu que o Estado do Ceará fosse o primeiro estado da federação a libertar o negro escravo”, disse.

Para o secretário adjunto de Cultura do Ceará, Paulo Victor Gomes Feitosa, o estado do Ceará deve sentir-se orgulhoso com a homenagem do Senado a Dragão do Mar, especialmente porque ela resultou da indicação de um senador cearense. Feitosa afirmou que num país onde mais de 50% da população é negra, personagens como Dragão do Mar deveriam ser lembrados todos os dias. Mas ele destacou que “infelizmente, em nosso país, não temos cultura de manter a memória de heróis ou guerreiros pobres”. Segundo o secretário, essa memória precisa ser resgatada constantemente, por meio de um trabalho com as escolas do Ceará e de todo o Brasil, para que personagens como o pescador não sejam esquecidos.

O senador Paulo Paim (PT/RS), presidente do conselho que escolhe os agraciados pela Comenda, lembrou que a entrega da honraria marcou o Dia Nacional da Consciência Negra. Paim afirmou que o Brasil precisa manter a luta em defesa dos direitos dos negros. O senador destacou que o país ainda registra um “verdadeiro genocídio de jovens negros” e informou que de cada 10 jovens assassinados, sete são negros. “Não podemos permitir que o chicote de ontem seja a bala de hoje”, concluiu.

A vice-presidente da Comissão, senadora Lídice da Mata (PSB/BA), afirmou que o combate ao racismo e a luta pela promoção da igualdade racial no Brasil não podem, nem devem arrefecer. Ela destacou que “a abolição da escravatura ainda está inconclusa em nosso país, porque a desigualdade racial, bem como as manifestações racistas e discriminatórias continuam fazendo parte do nosso cotidiano”.

Agraciados – A Comenda também foi entregue ao músico Martinho da Vila; ao ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Benedito Gonçalves; à militante do movimento negro, Edna Almeida Lourenço, conhecida como Ekdje Edna de Oiyá; e ao professor e economista Silvio Humberto dos Passos Cunha, fundador do Instituto Cultural Steve Biko. A honraria foi entregue ainda a representantes do cantor Gilberto Gil e do ator Milton Gonçalves.

Dragão do Mar – Francisco José do Nascimento nasceu em Canoa Quebrada, Aracati, Ceará, em 1839, e faleceu em Fortaleza, em 1914. Ele foi nomeado prático da Capitania dos Portos, em 1874, conviveu com o drama do tráfico negreiro e envolveu-se diretamente na luta pelo abolicionismo.

Uma de suas atitudes heroicas foi o fechamento do Porto de Fortaleza, impedindo o embarque de escravos para outras províncias. Em 1882, sob sua liderança, os jangadeiros cearenses abriram as velas de suas embarcações, na recepção do famoso abolicionista José do Patrocínio. O “Dragão do Mar” ajudou na libertação de escravos na então província do Ceará, em 1884, quatro anos antes da abolição da escravatura no país.

Abdias Nascimento – A comenda leva o nome do jornalista e ex-senador, Abdias Nascimento, que morreu em 2011, aos 97 anos. Ele é uma referência no Brasil quando se trata de igualdade racial. Em 1948, junto com amigos, fundou o jornal O Quilombo, que deu voz a grupos sociais alijados da grande mídia.

Com a edição do Ato Institucional Nº 5, em 1968, Abdias Nascimento foi para o exílio e ficou 13 anos longe do Brasil. Ele foi senador pelo estado do Rio de Janeiro entre 1997 a 1999. Assumiu a cadeira no Senado após a morte de Darcy Ribeiro, em fevereiro de 1997.

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