Patrícia Santiago: Colunista, Assistente Social

O processo eleitoral que dividiu o país acabou, mas os projetos dos principais grupos políticos que estavam em disputa não. A extrema direita brasileira assim como outros projetos de extrema direita no mundo não acaba com uma derrota nas urnas. Aqui ela continua barulhenta, com muito dinheiro para disseminar sua ideologia e bem representada no congresso. Passamos por um processo eleitoral traumático, duro, difícil, assim como todo processo eleitoral envolvendo forças de extrema direita são; principalmente se esse movimento político já estiver sólido e estiver se transformado em um movimento de massas como é o caso do Brasil e Estados Unidos. As eleições recentes dos países na qual a extrema direita disputou com chances reais de ganhar, foram eleições bem acirradas e a diferença eleitoral é bem pequena, podemos observar esse fenômeno na França, nos Estados Unidos e em toda a América Latina, deixando sempre um legião de inconformados com a derrota.

Este processo eleitoral tão peculiar nos proporcionou presenciar no tempo histórico, como uma ideia fascista antes repudiada, se transforma em um movimento político sólido que captura parte considerável da sociedade com seus ideais teocráticos, autoritários, violentos, chauvinistas e anticomunistas. O País está dividido e não mais da forma como conhecíamos antes, onde se escolhia um lado político somente, o país está dividido entre pessoas armadas e violentas, intolerantes e golpistas, que bradam sem vergonha alguma pela volta da ditadura militar e as demais, que acham tudo isso um surto coletivo ou sintomas de uma sociedade doente.

O fato é que a frase “dividir para conquistar” é aplicada como método por esses grupos; dividir grupos minoritários para que lutem contra seus próprios interesses, dividir o povo entre cristãos e não cristãos, dividir os cristãos entre denominações religiosas, categorias profissionais, dividir a sociedade entre os bons e os maus, entre nós e eles, entre os patriotas e os inimigos da nação. Com a eleição de um novo governo e a derrota do representante legal desse projeto de ódio, tentamos frear o avanço desse fenômeno com características fascistas e impedir que o dinheiro público seja usado para alimentar uma ampla rede de desinformação que serve a esse projeto, mas ainda não o derrotamos de fato, a derrota de fato do fascismo não se dá com processos institucionais, não se derrota uma ideia com uma votação.

Difundir uma educação sem preconceitos, trabalhar a coletividade e colaboração, combater ideias extremistas, abominar a xenofobia, defender o estado laico, denunciar crimes de apologia ao nazismo, fazer debate nas redes e nas ruas, são algumas das opções, mas tendo a consciência que o fascismo é produto do sistema capitalista, e que sempre que este se sente ameaçado esse fenômeno volta novamente ao cenário e com protagonismo.

Portanto, enquanto vivermos sobre a égide do capitalismo teremos que ter consciência de estarmos vigilantes para combatermos esse fenômeno quando este se reapresentar como solução para os problemas estruturais do sistema. E no momento histórico por nós vivenciado, impomos uma grande derrota a ele, vencemos uma importante batalha e demos o nosso recado: repudiamos as ideias propagadas pela extrema direita no mundo todo. Queremos reconstruir nosso país e frear o ódio disseminado por esse grupo, queremos menos armas, menos crimes ambientais impunes, queremos menos desigualdade, moradia digna para todos, emprego e renda, queremos que todos os brasileiros vivam com dignidade, queremos um país pra todos(as) e não para alguns grupos.

Patrícia Santiago
Assistente Social