Patrícia Santiago: Colunista, Assistente Social

O mês de junho é especial para nós nordestinos, as festas juninas nos permitem momentos de desfrute e vivência de aspectos específicos de nossa cultura: as comidas, as quadrilhas, as músicas, o encontro. As grandes festas tradicionais e os festivais de quadrilha nos encantam e nos alegram, e em tempos tão difíceis, esquecemos um pouco do caos social vivenciado por todos.

É comum nessa época, assim como também acontece no carnaval, os festejos populares receberem investimentos por parte do poder público, permitindo que hajam festas com atrações, premiações para escolas, blocos de carnaval e quadrilhas juninas, ações por vezes, bem pontuais, contrastando com a propaganda que muitas prefeituras fazem de si mesmas como administração que incentiva a cultura popular, como se a cultura popular se resumisse a duas datas anuais, quando não uma, como é o caso de nosso município, que não costuma ter festejos de carnaval.

Vale aqui ressaltar o momento delicado vivido pela cultura no nosso país, são anos difíceis, cortes sequenciais, dois anos de pandemia, falta de amparo do poder público, perseguição e abandono dos artistas e produtores culturais. Quem tem na cultura sua fonte de renda vem passando por momentos de dificuldade em decorrência de um a política que odeia artistas e que fez deles seus inimigos. Nossa cidade tem uma diversidade de artistas, atores e atrizes, músicos, cineastas, repentistas, grupos de dança, escritores; todos trabalhando em um setor indispensável às nossas vidas. Em contraponto à garra dos nossos e das nossas artistas, deparamo-nos com uma cidade que ignora a importância da cultura para nosso povo, esse desprezo pela cultura tão explicitamente externado pelo governo federal, no nosso município não vem em forma de palavras rudes, mas se materializa nas ações e omissões dos nossos representantes, no teatro deteriorado, fechado e sem espetáculos, na escola de música Eleazar de Carvalho que alterna entre períodos de funcionamento e de paralisação das atividades, na biblioteca municipal carecendo de reformas, na extinção da secretaria da cultura  ocorrida em 2021.

A população não é indiferente a isso, talvez por isso, tenham reclamado da contratação de um único show a preço altíssimo, enquanto setores essenciais do nosso município não recebem investimento e atenção. Aqui não falarei que não queremos festa, também não repetirei o que ouvi exaustivamente nesses dias sobre política de pão e circo, embora tenha ciência que esses shows faraônicos pipoquem em ano eleitoral em municípios Brasil afora. Falarei do que queremos, como moradores de Iguatu, queremos atenção e investimentos em áreas estratégicas, queremos mobilidade urbana e espetáculos teatrais, queremos medicamento nos postos e música popular, queremos médicos no postos de saúde e aula na escola de música, queremos shows e reponsabilidade com o orçamento público, queremos comida e arte, pão e poesia. A cultura resiste e nossa necessidade de viver a nossa cultura não acontece só em junho, mas o ano todo.

*Por Patrícia Santiago: Colunista, Assistente Social