Coluna: Dia-a-dia com Maria Ontem não estive na Califórnia

Maria Lopes, colunista e advogada

Estava frio, era inverno. Cruzei a Pine Avenue observando cada casal, cada rosto entretido com o glamour metropolitano, sem ousar pensar em comprar nada, nem mesmo arriscar um lanche na praça. A praça!

A Califórnia abriga pomposas ruas que fascinam seus visitantes, inclusive pelo glamour de Beverly Hills, pela pompa da calçada da fama, combinando uma das costas mais lindas dos Estados Unidos, com montanhas nevadas deliciosas para esquiar, florestas espetaculares protegidas por parques nacionais, um deserto impressionantemente lindo, e claro, cidades famosas como Los Angeles e São Francisco.

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Começando a chover, decidi parar na cobertura de um espaço onde cheirava o café no ponto e o barulho de jovens tão alegres. Olhava-os como a perguntar em que ponto geográfico perdera minha bússola de vida, onde deixei aplainando meus mais vívidos sopros e sonhos, sem conhecer tantas coisas como agora estivera me dando à oportunidade.

Uma macieira abundante dera-me a sorte de um fruto maduro sem nenhum custo. Saciava-me e andava sem rumo certo, eu queria galgar o mundo por todos os anos que me privara. Quem sabe um dia, a Escócia, ou até mesmo um palmo das casas nas quais poderia ter habitado, não fosse o dia do passaporte para o exílio.

Não dominava o idioma, nem leitura, nem escrita, o que nada me fazia falta por estar ali por estar, sem escolha, simplesmente estava lá, vibrando pela oportunidade da viagem, liberado sem vergonha do velho casaco emprestado, sapatos gastos…
Alguém tocava na rua e o refrão me chamou atenção:
Você que vem de lá
O mundo é todo nosso
De alguma forma somos ventos
Somos água, somos pó
A liberdade é algo que independe
Do poder de ir e vir
Ela nos rege, e nos faz sonhar
Na Califórnia nem se está

Por Maria Lopes