Dez pessoas trabalham na limpeza e desmontagem do Cinema na Praça, que acontece na Praça do Ferreira.

Dez pessoas em situação de rua, que vivem ou já moraram na Praça do Ferreira, estão trabalhando na 29ª edição do Cine Ceará. Desde o último sábado (31), o grupo ajuda na limpeza e desmontagem de parte da estrutura do Cinema na Praça, atividade voltada para os moradores do Centro de Fortaleza. O serviço segue até o dia 6 de setembro, último dia dia do evento, entre 17h e 00h.

Além de exibição de longas e curtas aberta ao público, a programação tem ainda slackline, batuque e biblioteca da rua com livros disponíveis para leitura. O Instituto Compartilha e o Coletivo ArRUAaça, que organizam intervenções culturais na Praça do Ferreira, são parceiros do festival e selecionaram as pessoas para prestarem o serviço.

“O evento respeita as pessoas que estão no território. A galera se sente reconhecida e abraçada com dignidade, de poder participar do evento trabalhando, gerando uma renda, mesmo que seja de forma temporária, e contribuindo para uma coisa que está acontecendo na praça onde vivem”, ressalta o ativista social André Foca.

Recomeço

Ocupando os bancos e calçadas de lojas da Praça do Ferreira há seis meses, Edvanir Pereira, 46, passou a viver em situação de rua há três anos quando se viciou em crack. Desde junho, contudo, ela diz não usar mais a droga. Com a oportunidade de emprego, ela tenta um recomeço depois de procurar insistentemente por uma vaga.

“É muito difícil ter oportunidade para morador de rua. Ocupa a nossa mente, porque quem vive aqui sofre muita violência, física e psicológica. E o pessoal do evento trata bem a gente, como se fosse normal. Eu falo isso porque as vezes me sinto rejeitada pela sociedade, mas aqui me sinto igual a todo mundo, é uma mão amiga de verdade”, considera.

Vitória Lima, 37, passou quase dois anos vivendo na Praça do Ferreira. Há cerca de um mês, mudou-se com o marido para a casa do pai. Sem renda fixa para arcar com as despesas do lar, ela também foi chamada para o emprego temporário, e diz estar focada no serviço.

“É daqui para casa. Já parei de ficar bebendo por aí, cheirando pó, me prostituindo nos cantos. Meu negócio agora é só trabalhar”, pondera Vitória, que complementa: “Eu era usuária de drogas, e a minha família estava cansada de mim. Hoje, estou liberta”.

Segundo André Foca, Vitória está em processo de “superação da situação de rua”. Pessoas nessas mesmas condições precisam de oportunidades para não voltarem a sair de casa. “Essa é parte que precisa mais de acompanhamento. É delicado, porque mesmo já estando em casas, elas se veem desempregadas e não conseguem se manter, e aí podem voltar para as ruas”, explica o ativista.