Nijair Araújo Pinto, Cmt do 4º BBM - Iguatu

A felicidade parece um estado de espírito infantil – não no sentido inócuo da palavra, mas da essência imanente aos pequeninos, os preferidos do Criador. A aproximação desinteressada, também. Junte-se adultos e teremos silêncios, arroubos de comiseração, pedantismo, falácias, aparências, máscaras; junte-se crianças e teremos a celebração da espontânea naturalidade do ser, sem roupagens quimioterapêuticas, apenas manifestações de essências que se formam, ainda pudicas; de corpos que se jogam, abraçam-se e se lambuzam nas esquinas da casualidade dos encontros gratuitos e atemporais.

A vida nos prendeu dentro de nós mesmos, ultrapassando o entendimento da clausura medieval. Os isolamentos ancestrais, a autotutela, o caráter ermitão de alguns poucos homens do passado e do presente. Todas essas variações da história gregária, talvez tenham sido opções ou limitações do tempo e no tempo, mas as cercas que nos rondam as periferias da socialização não são apenas nossas, individuais. Elas mais parecem cortes não cicatrizados de falências estruturais de famílias, repercutindo no universo interior e nos fechando em minúsculos mundos, todos caóticos, dentro da natural entropia social que nos prende e nos aparta – uma e outro vinculados por interesses efêmeros, de homens finitos e displicentes que se perdem e se afastam da essencialidade e beleza daquilo que nos sustenta: a vida e o amor. Basta, entretanto, um estalo, uma fenda, uma brecha, um buraco… e nos perceberemos nus – livres daquilo que todos os outros esperam de nós, desde os pais aos mais insignificantes desconhecidos.

A falta de opções de lazer, por exemplo, que ronda a vida das nossas crianças e de nós adultos, também, demonstra claramente o abismo no qual nos encontramos. Por isso, talvez apenas por isso, ao menor sinal de diversão, elas se extravasam na liberdade ingênua e espontânea que possuem. Será que elas realmente se robotizaram (como muitos defendem) ou nós, adultos, é que estamos roubando, embora inconscientes, a melhor fase dos futuros cidadãos do mundo? Nós nos prendemos a etiquetas, temos vergonhas – no plural. Elas, não. Nós nos prendemos aos outros, temos satisfações e fantasmas que nos atormentam as ações. Elas, não. E somos nós, acreditem, os maiores criadores e fomentadores dos medos e dos fantasmas que assombrarão nossos pequeninos, criando limites e o impossível. Para a criança não existem limites, existem sonhos! Quando, portanto, uma sociedade se forma sem a pujante quimera juvenil, certamente seus homens adultos erraram feio!

Criticamos as almas pueris que se isolam do mundo e se perdem nas ilusões das telas, estáticas e frias, dos computadores. De igual modo, nós nos espantamos diante do sorriso de jovens que se esbaldam – pulando, brincando, gritando, interagindo com outras crianças, ao arrepio de lentes perplexas que entendem essa liberdade jovial apenas como portal de enfermidades. A criança que se banha na “lama” da chuva, esbalda-se ao fugir da estaticidade mórbida da cama. Quando olhares adultos ignoram ou desconhecem, por também terem sidos criados assim, que a maior dádiva da existência é a liberdade e não a maquiagem, sempre aparente e frívola, da simulação, questiono: Que maldade existiria nos gritos de um jovem que corre entre bicas que se formam durante as chuvas ou se banha num buraco que surgiu no meio da rua, por causa de uma tubulação que rompeu? Que maldade existe no grito? Que maldade existe no sorriso? Maldade é criar prisões e exigir-se liberdade!

Nijair Araújo Pinto – TC QOBM
Cmt do 4º BBM – Iguatu