Nijair Araújo Pinto, Cmt do 4º BBM - Iguatu

Residir em Crato e trabalhar em Iguatu obriga-me a viajar semanalmente. Portanto, vivo pendulando entre as duas cidades. Na última viagem que fiz, entretanto, fatos singelos me levaram a reflexões sobre a minha dependência em relação aos símbolos e às facilidades da vida moderna.

Cheguei. Desfiz as malas. Alojei-me. Verifiquei algumas pendências no quartel… Até aí tudo dentro da normalidade e do automatismo dos meus últimos cinco anos, mas, quando precisei pagar a alimentação na hora da Ave Maria, percebi que havia esquecido a carteira em casa. Fui ao alojamento, violei precocemente meu cofre – que seria aberto apenas em dezembro –, retirei as moedas, paguei o que devia e, depois de alimentado, iniciei as articulações para “resgatar” minha documentação, pois estava, literalmente, sem identidade. De imediato, entendi que não poderia sair de carro – estava sem a habilitação –, não poderia fazer compras – o dinheiro e os cartões não estavam comigo. Até sair do quartel, acredite, leitor, pareceu incômodo, pois o volume da carteira, no bolso de trás, não era o mesmo e fez falta. Como as ausências e perdas nos incomodam!

Nas horas de estresse, como habituei-me a sublimar as contrariedades lendo ou ouvindo músicas, peguei o celular e abri o aplicativo do Youtube. De repente, salta-me aos olhos uma mensagem aparentemente tão antiga quanto o jornal de ontem, mas cuja importância se manterá atual no tempo, suscitando discussões: “Hino Nacional nas escolas”. Incontinenti, abri a página e algumas criancinhas estavam cantarolando o hino, todas dispostas, organizadamente, no pátio de uma escola. O vídeo me causou estranheza – não é comum em nosso país crianças cantarem o hino brasileiro. Excetuando-se os colégios militares, raríssimas escolas, públicas ou particulares, mantêm essa manifestação de culto a um dos nossos quatro símbolos nacionais. Associado ao vídeo, uma reportagem traçava comentários sobre o porquê daquela exposição das nossas criancinhas, futuros cidadãos brasileiros… Li a matéria, pesquisei mais fontes, mais colunistas, autoridades, opiniões de civis e militares noutras reportagens, fui a outros sites. Independentemente do que diziam, enchi-me de orgulho ufanista – nada doentio, tudo dentro da normalidade e da ponderação que são peculiares, ou deveriam ser, a um homem de meia idade. Que sensação maravilhosa, repito, independentemente do que diziam, a de ter, em quase todos os meios de comunicação, a oportunidade de ouvir e ler meus compatriotas falando sobre o Hino Nacional Brasileiro.

O óbvio ululante precisa ser dito – essa assertiva tem me visitado recorrentemente. Estamos nos vestindo demais de mediocridades, de perfumarias, de aparências e nos perdendo, sobremodo, de nós mesmos e das nossas origens ancestrais mais longínquas. O mais lamentável é que não percebemos que as grandes conquistas, os melhores valores e a importância que damos a quase tudo, normalmente se formam e se consolidam na infância ou no inusitado do esquecimento – ressurgindo nas necessidades – ou na falta e as ausências – pelo sentimento da culpa – ou nas repetições que fazemos ao longo da vida – repetir forja bons ou maus comportamentos. A verdade, por exemplo, repetida mil vezes, nunca é demais! Uma mentira, repetida mil vezes, pode até parecer verdade, mas jamais a será. A diferença é sutil, mas essencial. A verdade é única, definida. Uma mentira, não. Os próprios artigos, substratos da Língua Portuguesa, auxiliam o entendimento. Que mal há em cantar o hino nacional, afinal? As ideologias não deveriam suplantar a sensatez.

Recebi minha carteira e, depois de muito tempo, movido pela curiosidade que o momento exige, decidi reler, mais cuidadosamente, o hino de Joaquim Osório Duque-Estrada e me deleitar com a musicalidade de Francisco Manuel da Silva e, confesso: não precisei de mais nenhuma ária, a brasilidade me acalentou.

*Por Nijair Araújo Pinto – TC QOBM, Cmt do 4º BBM – Iguatu