“Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão”
(Belchior, Paralelas)

Pelos ecos do meu ser um tom de melancolia aproximava-se evidenciando que o crepúsculo se fazia, e a penumbra se tornaria presente. As luzes da cidade mostravam um cenário industrial em sons, gritos, um ar tumultuado, asfalto, domésticas, vigilantes, garçons, mulheres da noite, estudantes, cachorros, atletas, religiosos, bêbados, mendigos, alados, idosos, crianças, um cortejo fúnebre, policiais, um acidente de trânsito, trabalhadores saiam das oficinas e começava a noite da sexta com o seu ar de expectativas ilusórias… Nem sombra de covid…

Havia uma noite no mundo, na cidade, em seus ecos… havia uma noite em mim, em cada olhar, faces e eus… Nos vários eus e nós na penumbra da cidade que a luz dos postes tentava ofuscar. Desenrolava-se a busca, o ir, o ofício, a vadiagem, o teatro da noite em que Deus e o diabo podiam estar em qualquer esquina, frente ao que se fazia… A luz dos postes não iluminava todos os becos… Havia ruas de melancolia, esquinas de solidão, lares sem pais, com vícios, um corpo jazia sem identificação, uma prostituta velha, sem dente, decote vermelho, cabelo sem uma cor aparente, crianças correndo, a PM que passava, um cachorro fétido, um cavalo solto e um senhor vendendo algodão doce… a única coisa doce daquele cenário… Havia também lugares claros, cores claras, pessoas bem vestidas, roupas claras, em mesas, comida, praça, igreja, parque de diversão, sorvete, sons de caixinha, um palhaço, jovens exuberantes, grandes madeixas, grandes nádegas, seios que deixavam olhos curiosos, desejos por todos os ares… O paradoxo é admirável e espantoso… Lá nos becos escuros passava um carro de luxo, parava em frente a um casebre, uma moça de corpo belo saiu, entrou no carro e foi com o velho que dirigia para os lugares claros… Nestes também algo causou, assustou, tirou a harmonia. Um homem dos becos escuros fazia as demais pessoas se afastarem. Era um homem de meia idade, barba enorme, andava descompassado, roupa suja, mal cheiroso, berrava, gritava, estendia os braços e os que ali estavam balançavam a cabeça em negativa. Ele sentou em um dos bancos da praça de cores claras, jovens que ali também estavam levantaram-se e saíram levando suas Bíblias. O homem lá dos becos escuros era a imagem não desejada no meio da claridade que ocupavam o centro da cidade…

Eu andei pelos lugares claros e escuros… via toda essa confluência de coisas, o antagonismo, o cinismo dos vários que vão e vêm, nossa pouca humanidade… o caos da cidade que fervilha em uma sexta e que mostrava a todos, sem ensaios, a realidade crua, cruel e malcheirosa… Andei pelos becos escuros e ruas claras de minha cidade e via tudo isso… Eu estava em um sentimento que essas coisas eram denotadas com mais vivacidade… via todas elas e sentia outras tantas…

Peguei a José de Alencar, subi na rua da Matriz, foi aí que vi a praça com as pessoas bem vestidas e o homem dos becos escuros que lá era indesejado pelos cristãos; vi a moça pobre dos becos escuros, linda, escultural, com o velho feio e rico… Vaguei… cheguei na praça da Bandeira, várias topics que saiam para uma cidade vizinha, lá haveria uma festa, na qual alguém que eu muito gostava lá talvez estivesse… Desci pela 15 de Novembro…Vagava meu pensamento e uma música do Waldick Soriano fazia meu ser sofrido mais sofrido ainda… Escutava em pensamento… “Hoje que a noite está calma/ E que minh’alma esperava por ti”. Eu estremecia em solidão, carência, saudade, desespero e o quadro de minha angústia se agravava pelo que via nos becos escuros e lugares claros…

Praça Caxias, Praça da Mulher, peguei a Avenida Perimetral, vi uma mendiga que dizia palavrões, muito bonita de feições, percebia-se, mas era maltratada pela vida miserável… Vi o “Roberto Carlos de Iguatu” em frente a um hotel conversando com um andarilho… “Roberto do Iguatu” estava todo de branco, como sempre e certamente cantarolava… Vi também, agora pegando a Cruzeiro do Sul, “Ureinha”, mancando de uma das pernas, falando só e sozinho em um trecho escuro da Cruzeiro, perto das Pedrinhas…

Paro no sinal do Alto do Jucá, olho para à direita e vejo Emilsom, esbravejava e ria, uma figura… que Deus o tenha… Desci pela rua do Prado… o velho Padro… quando eu morava na Coronel José Adolfo havia uma sorveteria aqui… a de seu Mariano, lá pelo que lembro vendia só picolé… Havia por essas bandas um cidadão destemido, que não abria nem para polícia, havia um esperto que furtava os comércios e ninguém percebia, havia também uma granja, um campo de terra vermelha por trás da igreja… Quando chovia ficava uma poça só… eu no meio da molecada nem ligava… O bar do Dedé, ainda hoje está lá, mais a frente, entrando no beco, tinha o bar de seu Gonçalo da carne assada… Lá ia eu passando nesses lugares de minha infância em uma noite de sexta-feira, lembrando de várias coisas que haviam passado e do que eu sentia na ocasião…

Passei também no Balão do INSS… era bem diferente lá pelos idos de 1997… até o sentido do trânsito dessas vias mudou. No Balão do INSS havia um bar em que meu pai sempre vinha, lembrei-me dele, de sua prosa compassada, das pessoas que lhe chamavam de “Manobra”, era seu apelido, dos tira-gostos que comíamos… Peguei a rua da Teleceará… minha mãe trabalhou lá nos anos 90… Passei em frente ao prédio da Loja Chic, pelo Abrigo Metálico, em frente aos prédios de seu Geraldo que vendia alumínio , hoje há outras lojas, e cheguei aos Pés de Benjamin… Sofrido estava… o olhar dela pairava em meu pensamento… a música em meu ser: “Volta, fica comigo só mais uma noite”. Eu chorava por dentro e em um lapso uma lágrima caiu… Eu ia de moto, com capacete, foi mesmo que chorar na chuva sem fazer expressão com a boca: ninguém viu… Desci a rua, passei em frente A Praça da FM, pela quadra de esportes e fui a um bar… Lá bebi, pensei, suspirei sofrido, vi as pessoas das ruas claras e dos becos escuros em um mesmo lugar… Vi o Airton, mais um que hoje não está entre nós, vi meu professor de Latim, outro que gargalhava alto e era notado; vi uma ex-namorada, o que me fez relembrar da última ex que podia estar em outra cidade, em uma festa. Eu ali… remoendo tudo, angustiado, sofrido, sentado na última mesa em um canto escuro para não ser visto… Bebi… simplesmente bebi… muito… Meu telefone tocou, era minha mãe preocupada, passava das duas da manhã… Peguei os becos escuros e fui para casa…

No caminho passei no Largo da Telha, parei, olhei suas águas… não queria voltar para casa… não mesmo… Ainda em minha moto peguei a rua do mercado, olhei o mercado da cidade, o centro da cidade na madrugada com seu comércio fechado, alguns cachorros revirando o lixo, um velho deitado em cima de vários sacos na calçada do mercado… Em frente ao CRI vi um senhor de bicicleta, cacetete do lado e um apito na boca… Passei em frente à Rodoviária, um ônibus de um cantor famoso, certamente iria à festa na cidade vizinha… Desço na Professor João Coelho, entro na Monsenhor Coelho, rua onde morava, o telefone tocou outra vez: era ela…

*Por Américo Neto
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