“E me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer.” Charles Bukowski

Ainda me lembro daquele domingo à tarde. Eu vinha pela rua da rodoviária após um jogo no Morenão. Já se contam 7 anos desde aquele dia. Eu vinha com muitos pensamentos aleatórias da época, nem sombra de covid. Alguns desses pensamentos remetiam-se à noite anterior… e lá estava eu indo para casa após o jogo…

Cheguei em casa depois de uma pequena caminhada, o Morenão fica a mais ou menos umas 5 quadras da minha casa. Entrei, fui para o quarto, joguei a roupa no cesto, peguei a toalha, ouvi o sinal de mensagem no celular e fui tomar banho, deixei a mensagem para depois, já sabia do que se tratava…

Então… alguns fatos na sua vida resumem-se em pequenos instantes aos quais não significam o todo, mas evidenciam como um instante marcou tanto o início ou o fim de ciclos. Li a mensagem, a vida seguiu…

Pensei nos últimos dias como somos covardes, como fingimos, como desistimos fácil das coisas e como não estamos adaptados à realidade crua, preferimos a ilusão. É impossível se adaptar a uma sociedade doente e como pobre querer ver possibilidade de realização em um mundo feito para ricos. Aliás, parcos ricos, bem poucos… a ilusão é constante… Traímos a nós mesmos… mentimos no espelho, em selfs, postagens, textos, presentes, dedicatórias, pensamentos e ações… “[…] Tudo mentira, tudo cinema, apenas cenas/Quando, em ledo engano-me, acenas […]” (Belchior, Amor e Crime). Estamos sempre na aparência das coisas, nos vendendo, vendendo a ilusão do autocontrole, da postura religiosa perfeita, do engajamento político e ideológico mais acertado, mas o teto de vidro está posto, qualquer observador minimamente atento percebe a casa de vidro. Ouvi essa expressão nas notícias políticas recentemente… No tocante a questão, estamos em junho de 2021, tá ok?

Fiquei sabendo de um fato, este já em meio ao contexto da pandemia. No dia que fiquei sabendo deste me pus a refletir… e algo coincidentemente me veio… A minha mente no momento em que eu percorria os corredores de um supermercado usando máscara, recorreu aquele reflexo do passado, lá atrás, quando voltava do jogo no Morenão, e eu percebi que do dia que voltava do jogo, para o dia deste novo fato que fiquei sabendo, já no contexto da pandemia, contam exatamente 7 anos de diferença de um para o outro! Precisamente… mesmo dia e mês… Fatos simplórios, mas que marcaram dois ciclos interessantes na vida de um cidadão comum… “[…]tudo muda e com toda razão […]” (Belchior, Apenas Um Rapaz Latino Americano). A vida possui ciclos e estes dois fatos com diferenças exatas de 7 anos de um para o outro me deixaram muitas coisas… Coisas boas que valem a pena recordar, que trazem saudade e lugar único na memória, que significaram muito no contexto ao qual aconteceram, mas também coisas que fizeram sangrar, as quais me deram um aprendizado que nenhum diploma pode oferecer… […] qualquer sofrimento passa, mas o ter sofrido não[…] (Belchior, Amor de Perdição).

Ouvi certa vez que mares mansos não fazem bons marinheiros, como também viver de tristeza não é algo essencialmente bom… Contudo, embora nos frustremos, a realidade está posta, fato que não nos impede de sonhar…

Recorrendo à memória dois fatos com o mesmo lapso temporal me fizeram refletir… Encontrei alguém que esteve em um desses lapsos de 7 anos… Ela me olhou, acenou e sorriu com o canto da boca; eu fiz o mesmo, mas ela não viu meu sorriso, pois eu estava de máscara… Vida que segue… Lembrei-me de um trecho do meu poeta favorito: “No presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais” (Belchior, Velha Roupa Colorida).

*Por Américo Neto
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