“Para quem bem viveu o amor
Duas vidas que abrem não acabam com a luz
São pequenas estrelas que correm no céu
Trajetórias opostas, sem jamais deixar de se olhar
É um carinho guardado no cofre de um coração que voou
É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou
É a certeza da eterna presença da vida que foi, na vida que vai
É saudade da boa, feliz, cantar.”

(Feliz, Gonzaguinha)

 

Seremos passados de alguém e em algum momento lembraremos disso em um domingo pela manhã, no momento em que cai uma mansa neblina…

Em uma rua da nossa cidade vi teus olhos em uma esquina. O momento durou não mais do que cinco segundos, mas para nós aqueles segundos foram intensos e o mundo parou… Somos passados um do outro em nossas memórias mais íntimas…

Ouvi uma música esses dias… ” Depois dessa ventania o temporal /Fez da nossa vida Um mundo desigual”, me fez lembrar de vários passados dos dias que na companhia de um bom vinho fazíamos o que o desejo desejava… essa trilha sonora faz parte do nosso passado…

Contemplo a fumaça de uma tragada que embalo em uma tarde após um dia de trabalho. Observo essa fumaça subindo no ar… que formas indescritíveis ela faz e eu no meio de confusões sentimentais do meu passado recente, tento imaginar mensagens no compasso sedutor do fumo aspirado na direção do céu… O que a fumaça quer me dizer? Lembro-me de uma vez que fumei e você me olhava…

O passado grita todos os dias em nós… Outra vez nos vimos de relance e eu vi e você viu que o nosso passado é mais vivo do que o nosso presente e futuro… Até quando a vaidade do orgulho gritará em nós lembrando do passado e o silêncio como conduta se representará para os outros? Manteremos a lógica pragmática? Seguirá a vida no legalismo e na tentativa de ser feliz sabotando a mente em meio ao esforço de ser normal matando o coração? Somos passados um do outro… você não nega, todos sabem e eu…. sei que somos passados um do outro… Será assim até o fim de nossa fingida existência?

Somos o passado que nos marcou… no presente, a lembrança daquilo que nos envolveu; no futuro… uma ilusão de ter as imagens da lembrança outra vez em nossa realidade…

As instituições não possuem sentimentos, são frias e seguem o rito da lei… O amor é uma instituição sem letras frias de um código ou ritos … a única regra é amar… é fazer o desejo… Acho que a lembrança do que fomos faz o desejo… embora só lembrança… quiçá…

Por Américo Neto

Contato: zeamericoneto@hotmail.com