“As alegrias juntam-se as tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério.”

Augusto Dos Anjos

Me veio à lembrança algumas tardes dos anos 90… como eram longas… Eu chegava da escola às 11 horas mais ou menos… tomava banho, almoçava, assistia Caverna do Dragão, Pica-Pau, Chaves e um filme que por volta das 13 horas semanalmente passava no SBT. Lá pelas 15 horas eu embromava para fazer a lição de casa, sem muita vontade… não havia internet para pescar as respostas no Google, então a moça que trabalhava lá em casa e cuidava de mim, quando sabia ajudava… Acho que eu não estudava nem uma hora direito… a vontade de ir jogar bola lá no Prado era grande… lá ia eu…

Recordo que o campinho de terra vermelha era atrás da igreja do Prado e ao lado da capela mais antiga… Havia uma rua estreita que separava as duas igrejas… hoje estão unidas por uma praça e o campinho de terra vermelha não existe mais… A igreja nova à frente da Praça dos Leões e a antiga ao lado do campinho de terra. Atrás da igreja nova havia uma rua estreita de calçamento e fio de pedra que separava as duas igrejas… O campinho era de terra vermelha, traves de madeira e um bando de meninos que passavam a tarde toda ali… E as tardes eram longas….

Lembro que cheguei a presenciar nas longas tardes dos anos 90 algumas tragédias sociais em meio ao cotidiano banal de uma cidade do interior de uma região historicamente violenta… Não eram todas as tardes que eu jogava bola… às vezes eu brincava de bila na rua Santa Luzia, perto de uma indústria desativada de algodão… hoje lá é uma faculdade… Em uma das tardes que pareciam uma eternidade eu brincava de bila com uns colegas de infância quando um homem saiu correndo de um comércio de esquina levando em suas mãos um saco de arroz… O dono do comércio saiu em perseguição e efetuando alguns disparos, não lembro se 2 ou 3, matou aquele que lhe subtraíra aquele saco de arroz… Tumulto, muita gente e vagamente recordo um homem negro ao chão, sangue em seu busto e no chão de terra da rua próximo a um esgoto; a sua camisa era listrada, calça preta e seus pés já estavam descalços…

A lembrança me trouxe outra vez que em frente à minha casa eu achei uma borboleta aparentemente ferida… foi o que pensei… Ela tinha as cores preta, laranja e branca nas asas… Acho que fiz com ela uma espécie de tratamento colocando-a em uma fresta da janela de minha casa do lado interno… Dias passaram… Em uma outra tarde, ainda memoro, eu estava na calçada com alguns brinquedos e novamente acho que a encontrei… Ela veio a minha mão e parecia que me agradecia e eu falava com ela em tom carinhoso… Sempre rememoro isso… as tardes eram longas…

Relembro que fui uma vez à casa de saúde de Iguatu. Um hospital que ficava próximo à escola onde eu estudava, o São José… O hospital ainda existe, a escola não… Fui com minha mãe visitar um parente em estado terminal… Memoro que as enfermeiras a todo tempo falavam baixo e pediam silêncio… Havia naquele hospital azulejos azuis e brancos… portas que se abriam e fechavam em sua enfermaria e pessoas de branco… O meu parente lá estava em um dos quartos com outros em camas uma ao lado da outra. Ele estava sentado, mas não tinha mais as pernas… haviam-lhes amputado … Evoco que vi uma senhorinha em uma cama em frente a que esse meu parente estava… Eu em minha curiosidade natural da idade a vi toda envolta de um lençol, só a cabeça estava de fora… Ela me olhou, eu também fiz o mesmo e durante alguns segundos fintamo-nos… Foram talvez uns 10 segundos, mas naquelas tardes dos anos 90 pareciam algo em tempo bem superior… como o tempo se arrastava naquele tempo… estas são as minhas impressões, nada racionais… Pude perceber algumas rugas, um olhar distante, cabelos bancos, olhos fundos no contorno da forma craniana que os envolvem… Algumas pessoas chegaram em sua cama e sua face saiu do alcance da minha visão… Não voltei mais a casa de saúde para visitar o meu parente, pois ele havia morrido, e aquela senhora certamente o destino foi o mesmo…

A memória ainda me trouxe um fato inesquecível até então… Um amigo de infância, meu vizinho, soube pela voz da rua que o mesmo havia morrido afogado no Rio Jaguaribe… A rua Coronel José Adolfo naquele final de tarde ficou cheia de “disse que disse” e como havia sido o afogamento… As águas do Rio Jaguaribe em uma das cheias dos anos 90 levaram meu amigo… A tarde terminou triste naquele dia… Vi de longe o pai do meu amigo com o olhar perdido olhando sem saber ao certo para onde… ou era o chão, a rua, a casa em frente… não dava para saber… Ele com as mãos na cintura apenas olhava o vazio e sua tristeza era evidente… O corpo do meu amigo só foi encontrado no outro dia… A tarde daquele outro dia também foi longa, mas o velório não… foi necessário enterrar o corpo logo naquela manhã… Ficou o vazio pela rua, na casa do meu amigo e comentamos, a molecada lá da rua, sobre a última vez que havíamos jogado bola ou bila com ele… A tarde naquele dia também foi longa… e triste…

Depois, em outra tarde, recordo de uma chuva, uma briga entre bêbados, o camburão da polícia, o homem do algodão doce e minha mãe chegando do trabalho e me trazendo um presente por eu ter passado de ano… Aquelas tardes eram longas… eu me lembro…

Por Américo Neto
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