“Eu odeio hipocrisia
Mas que se foda
Eu odeio gente chique eu não uso sapato
Mas que se foda”
(Não uso sapato, Charlie Brown Jr.)

Analisando aqui… quase ninguém quer aprender literatura, teoria da literatura, gramática ou até mesmo escrever e falar com primor, geralmente é isso. Paradoxalmente temos a linguística que explica as variações e mudanças das línguas; a mesma também serve por parte de alguns para contradizer a gramática. Tudo no âmbito da abstração… tão somente… Linguagem, história, geografia, filosofia, as humanas em geral, não gera capital nas sociedades subdesenvolvidas… é algo por demais romantizado. Quando recorrem às gramáticas ou materiais das humanas é tão somente para concursos, vestibulares ou pesquisa bem rápida, nada capitalisticamente produz, fato. Salvo, poucas e parcas exceções como Coelho, karnal, Pondé, Cortella, Fausto, Bosi, Cândido, Bagno, Fiorín e alguns outros, bem poucos, capitalizam algo escrevendo. Engenharia, Medicina, magistratura, oficialato militar são áreas capitalizadas, diferente daquelas que falei… O paradoxo é que estas últimas dependem daquelas primeiras… O paradoxo do sistema não só é abominável, mas também admirável na conduta de todos que acham normal a abominação.

As normas gramaticais e o falar bem com desenvoltura são inegavelmente importantes em toda e qualquer sociedade, mas Darcy Ribeira já entendia que a crise na educação brasileira não é crise, mas projeto. O conhecimento da língua materna determina o acesso à outras áreas do conhecimento, inegavelmente deve ser por isso que a educação não é prioridade de governos; manter o povo falando “errado”, conforme as regras da gramática, sem saber escrever e interpretar textos, determina um cenário mais do que confortável para a manutenção das elites tradicionais no poder.

Outra coisa: não há purismo na língua, não… jamais… A língua é um corpo mutante, o sistema canônico, de codinome gramática, também passa por mudanças. Todas as línguas hoje existentes são oriundas e variantes de outras que já existiram. O português dos trópicos não é homogêneo, jamais foi e nunca há de ser… Não há, sobretudo na fala, maneira certa ou errada, o que vale é se comunicar, até porque grande parte deste sofrido país não conhece e nem tão pouco morre de amor pelas regras gramaticais… Gramáticos, professores, amantes da literatura e latinistas que se empenham em ler, falar, escrever bem e anseiam por ver essa língua correta na fala e escrita, em conformidade com as regras do cânone, são como viúvas que esperam o regresso do seu amado… não acontecerá…

Há despeito de certo, errado e outras coisas no que concerne ao primor da língua bem falada e escrita, deixemos isso com os gramatiqueiros, latinistas, amantes e professores românticos da norma… a tal norma culta… A língua corre solta e muda como tudo nesses tempos pós-modernos… De resto, basta constatar o português dos anos 50 do século passado com o de hoje, a quantidade de leitores no país e o número de livrarias nas cidades; esses fatos, somados a outros, evidenciam que viver e sonhar com gramáticas, regras sendo empregadas e achar que até os que gostam da norma falam português correto conforme a gramática sempre… Cada um com suas ilusões… o povo fala, escreve e se entende, a despeito de conhecer gramática, literatura, norma culta, preconceito linguístico, variação linguística e essas coisas de gente intelectual…

Por fim, desculpem os amantes da língua por maltratá-la com esse simplório texto de um analista das coisas do porão… os erros ficam com vocês, isso é o que fazem com primor: corrigir! Faltando isso o que há de ser de vocês?

*Por Américo Neto
zeamericoneto@hotmailcom